ANO: 25 | Nº: 6398

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
26/10/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

À sombra das rampas

Professor da Faculdade de Direito de Bagé

No princípio era impossível: estudante do interior que sonhasse com o Direito tinha de sair de sua cidade, mudar-se. Ir para Porto Alegre. Também Pelotas.
Depois de terminar o ginásio, comemorar a formatura, ouvir discurso do orador oficial e de despedida, o paraninfo, as músicas de dona Dalila Ferreira, as flores, os ramalhetes de hortênsias, abraços, tudo dentro de uma fatiota de linho com gravata borboleta, começava o sonho com o futuro, a faculdade.
O negócio era se matricular no curso clássico do Colégio Rosário, ir para o Anchieta ou enfrentar a batalha por uma vaga no Julinho, e dê-lhe latim, Cícero, Catilínia, se vales bene ego valeo, Ovídio, a raposa e as uvas, estão verdes e muito português, Fernando Pessoa, muito além da Tapobrana. Alguns preferiram enfrentar o clássico do Auxiliadora, Mathias, Alceu Collares e depois se deslocar para o Guaíba, atravessar a balsa.
O vestibular não tinha nada de cruzinhas, a redação rigorosa, a tradução do latim e uma língua de opção, o inglês, francês ou espanhol. Passado o suplício do escrito, vinha a catarse do oral, as perguntas feitas na frente de todos, o sorteio de ponto, o purgatório, onde se pensava um pouco, como exame de consciência em confessionário.
Finalmente: o resultado! Os telegramas para a família. Uma noitada no Maipu, uma ronda pela Voluntários, Cabo Rocha e Pantaleão eram encontros seguros com o martelinho do dr. Camilo. A passeata dos bichos, a cabeça raspada, os trotes dos veteranos, depois a vida universitária, a descoberta do Direito Civil, as infrações penais, os bailes na Reitoria, no sábado se dava uma esticada no círculo bajeense, aventuras com as dosas, os filmes científicos que passavam à meia-noite, o Imperial onde os cadetes dominavam.
Alguns preferiam Pelotas, iam se defrontar com os Russomanos, o Antero Leivas, os Antunes, os pensionatos, a Santa Cruz 412, a casa do Estudante, a pensão da Lourdes, a pesada de Bagé, Liader, gordo Dini, Zico, Clóvis, Rissieri, Bolinha, onde eu e Luís Coronel com o Theo no encalço, o bispo, a torcida do Brasil, um cafezinho no Aquário, as mesas de mármore, as gurias do São José, meu irmão Fernando era porteiro nos bailes do centro acadêmico da Agronomia, a batucada da general Telles, as aulas do dr. Mafei, enfim as lembranças da cidade que meu amigo João Silveira chamava de Atenas brasileira, enquanto o Diniz me ensinava possessórias, no escritório da Anchieta.
Pois, depois da Economia, depois da Filosofia, quandocaiam as paredes do colégio Santa Isabel e o Dr. Átilla começava a erguer a FUnBa, começou o movimento para uma Faculdade de Direito, porque não, Bagé, estava crescendo, mesmo assim não era fácil, muita gente pessimista, artigos contrários se sucediam, onde se viu, Bagé, com Faculdade de Direito? De onde vão sair professores, ninguém vai se comparar ao André da Rocha, o Elpía dio Paes, o Câmara, o doutor Galeno, mas essa turma não se enxerga?
Escritos de jornal: dr. João, Catalino Machado, era o tempo do Bagé despertar e lutar.
No gabinete do Tarcísio, entre os autos e audiências, no meio dos despachos, a letra clara e inteligível, amadurecia uma lista de matérias e nomes, tu ficas com o Processo Penal, o dr. Telmo com Instituições, o Mário com o Civil, o dr. Breno, o Jaime.
Rodolfo e Davi saíram a garimpar informações, na Urgs, na PUC, pelo interior do Estado, anotando currículos, sabendo de experiências.
Quando setenta nasceu já se fazia o primeiro vestibular, a oportunidade que eu não tive, que muitos não tiveram, agora era palpável, o sonho de ser advogado estava aqui, pessoas que estavam em outras profissões perceberam a chance de serem bacharéis, começou a vir gente de Lavras, de Dom Pedrito, com sacrifício, o asfalto pouco.
A primeira turma, a emoção, os pioneiros, tudo descoberta, experimentação, as aulas de Antropologia, as ervilhas do Mendel, o pitencantropus, dr. Telmo aplaudido, o Rodolfo, explicando porque saiu o comércio na Grécia, o Davi introduzindo conceitos.
Alunos que eram grandes professores, Zilá, Edy, Caetana, Dora, policiais como Ramayana, Bastos, Santos, guris como o Claudinho, o Paulo Ronaldo, o Lugo, enfim, um grupo que por ser o primeiro ficou inesquecível, o Palmor, o Limberger, o Paulo César, a Zilma, Antonia, a Verinha, e ... a Academia!
A Academia foi um estado de espírito, uma marca registrada, uma república livre, ainda vou contar as estórias da Academia, o monstro, o promotor, irmão do Costinha, as epístolas da Déa, o Severinho vendo a bola passar por cima.
Um grupo constante: o Miguel Gularte, o Erly, o Juca Abero, o Edgarzinho, o Antonio Fuchs, Fernando Gaspary, Déa, Severinho, Costinha.
Depois da aula um jantar no City ou no Arlindo, que também começava. Era sagrado, carne e vinho, as últimas piadas. Nos sábados à tarde, estudos no porão da casa do Juca Abero, o dito revisando português, acentos, crases, dois esses, a estufa, os professores também iam para revisar matérias, a integração que sempre foi o timbre da Faculdade.
As aulas na sala 13B, o Edgarzinho com o dedo em riste, na frente das reivindicações (como não havia vídeo-cassete, de vez em quando, uma massa e uns filmezinhos meio atrevidos no escritório do Fuchs, o Erly providenciava a máquina). A Academia.
Isso tudo me vem quando a gente está chegando a ser Universidade, será que naquele tempo se pensava nisto? Nestes 17 anos tantos vieram e foram.
Hoje, andam por todo o Brasil, juízes, promotores, políticos, delegados, procuradores, auditores, prefeitos, vereadores, simplesmente, a turma da FUnBa.
Hoje, são 1.300 que multiplicaram aqueles cinquenta iniciais, a colonização da justiça e do saber, todo o campus já não chega para os que vem de todos os lados em busca da mensagem original da Faculdade de Direito de Bagé. Dos livros do Mário Moura. Do Encontro Internacional de Metodologia do Direito. Das conferências do Chico do Couto. Dos concursos destacados do Fábio Rosa. Dos jubilados com a medalha Pontes de Miranda. De presença nos cargos diretivos. Das pesquisas históricas do Tarcísio. Das greves, dos pré- requisitos, dos créditos. Das apostilas. Da cola. Dos ônibus chegando. Do bar. Do Morvan. Do pensador. Das rampas. As vozes perdidas, os caminhos onde encontramos o nosso passado, onde pisamos os pisados passos, no encontro das relembranças.
Parte da vida, fagulha de amor e tempo. Um sobe/desce de aspirações e certezas.
Nas rampas da existência, as rampas da Faculdade. As rampas.

Publicado em 8 de abril de 1987.

 

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