ANO: 26 | Nº: 6589

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
26/10/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Profissionais x Amadores - Versão 2019

Em 2011, tivemos eleição para o Conselho Tutelar e, analisando o resultado, escrevi o texto seguinte que foi publicado neste espaço em 3 de dezembro daquele ano. Por ironia do destino, passados oito anos, parece que nada mudou, tanto que resolvi reprisar o artigo, devidamente editado para ficar mais enxuto. Vamos lá: "Domingo passado, Bagé elegeu o seu Conselho Tutelar em uma eleição que ficou marcada pela desigualdade. Os números da disputa são, por si, impressionantes e reveladores da disparidade na disputa. Apesar do número recorde de eleitores, a participação popular não chegou nem a 10% do eleitorado local, mas isso não impediu que dois dos catorze candidatos fizessem uma votação capaz de eleger vereador. A candidata mais votada para o Conselho Tutelar fez mais votos que dois vereadores eleitos na última eleição: Gustavo Moraes e Cláudia Souza. Outro dado interessante é a quantidade de votos nulos e brancos (em torno de 60). O voto branco ou nulo é previsível em uma eleição onde o eleitor é obrigado a ir até a seção eleitoral. Porém, na eleição para o Conselho Tutelar, isso não é obrigatório e mesmo assim alguns eleitores se dignaram sair de casa com um calor escaldante, descobrir seu local de votação, enfrentar fila etc, para chegar lá e anular o voto ou deixá-lo em branco. Convenhamos, é muito estranho!
Essa eleição para o Conselho Tutelar contou com a intervenção escancarada e desavergonhada de, pelo menos, uma máquina partidária e uma igreja. Política e religião atuando decisivamente numa disputa que visa escolher os conselheiros que, salvo melhor juízo, desempenharão uma função pública completamente desvinculada de qualquer ideologia partidária ou crença religiosa.
Técnicas, estratégias e práticas comuns nas disputas políticas que ocorrem todos os anos pares no Brasil, se repetiram no último domingo deste ano ímpar. Até pode ser que não haja nenhuma ilegalidade nisso, afinal são práticas consagradas no velho "vale tudo" eleitoral que as autoridades públicas não querem ou não conseguem reprimir, mas fico muito indignado com tudo isso. É, antes de tudo, uma covardia e, pior, sinaliza que nas próximas disputas o padrão tende a ser o mesmo, impedindo que pessoas vocacionadas e qualificadas para a função, conquistem suas vagas se não fizerem uso de estratégias eleitorais profissionais.
Depois ainda perguntam: por que as pessoas boas e sérias se afastaram da política? Adivinha! No Brasil daqui a pouco até para concorrer a síndico do edifício, só terá chance quem fizer uso destas máquinas eleitorais especializadas em captação de votos de pessoas que votam em qualquer coisa ou pessoa que alguém mandar. Esta intervenção já ocorre nos movimentos estudantis, sindicatos e em outros movimentos ou associações mais ou menos expressivos. Agora invadem, também, a disputa do Conselho Tutelar. Qual é o próximo passo? O pior é que estes métodos tendem a contaminar o sistema, pois este apoio tem um custo e é aí que mora o perigo. Será que alguém vai cobrar esta conta? Quando? Como ela será paga? O eleito já assume seu cargo ou função com um saldo devedor nesta conta corrente dos favores. Pronto! Não há como escapar mais do jogo do "é dando que se recebe" ou do "uma mão lava a outra".
Não tenho razões para duvidar que as eleitas desempenharão suas funções a contento, com empenho e competência, porém, essa forma como algumas foram eleitas acabou tirando o mérito da conquista. É uma pena!"
Tudo indica que está "tudo como dantes no quartel d'Abrantes", que nada mudou entre 2011 e 2019 e, assim sendo, como diria Cazuza, "Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades...o tempo não para!"

 

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