ANO: 25 | Nº: 6382

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
31/10/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Indigência contemporânea

A humilhação pública é uma das armas de autoafirmação dos bestializados. Destituídos de piedade, nutrem sua insignificância moral no escárnio das carências alheias. Tais selvagens, como bons ególatras, julgam-se superiores e são ávidos na amostragem de seus vazios existenciais. Arrogância, falta de empatia e indignidade são características onipresentes naqueles que possuem dificuldades na compreensão do que pode formar um bom caráter.

Jovens infelizes buscando curtição, uma desconhecida influenciadora digital, um MC que se vende como artista e uma deslumbrada miss sedenta por holofotes, neste ano de 2019, ilustraram bem essa realidade contemporânea. Para ser mais específico, a vileza da exposição de suas almas em filmagens amplamente divulgadas, operou como em um falacioso jogo de soma-zero: para o engrandecimento de alguém, é necessário o rebaixamento do outro.

No início do mês de abril, duas jovens destrataram um funcionário da lanchonete Bob’s enquanto ele exercia suas atividades laborais. No vídeo, as garotas dizem: “Limpa o chão fud***”; “lambe o chão”; “limpa, babacão”. Após a repercussão, uma das envolvidas disse que namorou com o rapaz por 6 anos e pediu desculpas; a outra disse que fez uma “brincadeira de mau gosto”, também pedindo escusas pelo ocorrido. Em outro vídeo, em meados de julho, a blogueira Fernanda Costa (quem?), com o rosto bastante rebocado de maquiagem, ao receber um pedido de ajuda de uma senhora, evidentemente carente de recursos econômicos, questionou se a idosa tinha troco para R$ 100,00, seguido de uma risada tão falsa como uma nota de R$ 3,00. Seu cinismo e futilidade poderiam ser detectados por um bebê. Posteriormente, com o rosto inchado e entremeado por choros, a influenciadora gravou um vídeo dizendo estar assustada com a “má interpretação” que as pessoas tiveram daquela situação, dizendo que postou o vídeo por não ter percebido maldade ou ofensa “pros pedintes” (?), pedindo desculpas pela atitude.

Já em outubro do corrente ano, um cantor que se proclama MC Gui, divulgou um vídeo em que ele faz uma “zoação” com uma menina ao chegar na Disney. Em sua “brincadeira”, o MC insinuou uma ridicularização da aparência de uma criança que estava sentada no fundo do ônibus. Detalhe: a magra e pálida garotinha usava uma peruca porque ainda se encontra em tratamento para câncer. Ao dizer que não teve intenção alguma de ofender a menina, o MC disse que a aparência dela se assemelhava a da personagem Boo, do filme infantil “Monstros S.A.”. Segundo alguns sites, a menina chorou bastante com o ocorrido. Por fim, uma desconhecida miss, fez um vídeo para seu Instagram na qual ela ri (sem muita graça) de um entregador de comidas que se deslocava lentamente de bicicleta, o que explicava os atrasos. Dada a repercussão negativa e após perder a coroa, em mensagem ela declarou não ter tido maldade ou intenção de zombar do entregador.

A ânsia por “curtidas” e visibilidade entorta a régua moral das relações humanas. Intelectualmente incapazes de antever os danos da ausência de misericórdia, alguns institucionalizam em suas vidas a indigência existencial. Avessos à moralidade, não existem limites para suas liberdades. Mas a execração pública destas pessoas pode ser outro lado dessa moeda: a da falta de compaixão pela aridez daquelas vidas.

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