ANO: 25 | Nº: 6382

Fernando Risch

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Escritor
01/11/2019 Fernando Risch (Opinião)

Jacarécracia

Faltaram-me dedos para escrever o que queria. Era tanta coisa, mas tanta coisa, que meu cérebro, disfuncional por natureza, pifou. Queria falar do óbvio mais uma vez, do conjunto indiciário mais óbvio que o óbvio ululante. Da família jacaré, que tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré. Mas não deu. As palavras não saíram.

Pensei, então, em falar sobre as autoridades competentes, das quais se espera que primem por certa isenção e honestidade, mas então fui ver a coisa toda na prática e o negócio é um imenso encouraçado verde. Nesse zoológico da lei, a competente regional é criadora de jacarés e o competente de cima, recém- chegado no pantanal, foi indicado pelo jacaré-mor. Ficou difícil de novo. Engasguei. Em palavras e em nojo.

Existem coisas mais importantes, eu disse a mim mesmo, tentando buscar uma letra ou outra para formar uma palavra, para, então, entrar em uma frase e concluir um parágrafo. Tem o filhote, o mais novo, brincando com fogo. E olha que eu nem sabia que filhote de jacaré gostava de brincar com fogo. Fala o que quer, provoca, atiça, ameaça. Na nossa normalização da barbárie, o estômago embrulha enquanto esperamos uma resposta de quem tem que dar, mas a resposta não vem, porque aquilo ali já é normal até mesmo pra quem não devia.

Vivemos a jacarécracia. Arrastamos-nos com o peito no chão, indignos; com braços curtos em busca do progresso; uma cauda traiçoeira a laçar em pancadas violentas ao que quer que passe por perto, limpando no seu arrastar todo o trajeto caminhado até então; e uma boca afiada, com a mordaça pronta a arrebentar, logo a abocanhar quem se atrever a questionar o regime débil do réptil.

O País vive o perigo da ruptura, e não é uma brincadeira imaginária, é real. Quando se tolera a intolerância, a tolerância some. Quando, por fins democráticos, se coloca ao poder o autoritarismo, a democracia some. E nesse brinquedo familiar continental que ousamos chamar de pátria, qualquer punição seja aplicada àqueles que desafiam o sistema democrático, uma resposta virá com mais força e mais autoritarismo, uma resposta vinda de quem não gosta de povo, liberdade, democracia e do Brasil.

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