ANO: 25 | Nº: 6386

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
02/11/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Faculdade de Direito: primeiros tempos

Sou dos remanescentes dos primeiros choros da Faculdade de Direito de Bagé. Antes que iniciassem os estudos jurídicos propriamente, lecionei Antropologia Cultural para o grupo precursor na etapa que se denominava "Ciclo Básico". Fui acomodado mais adiante em "Ciências das Finanças", disciplina que hoje não consta mais do currículo. E, finalmente, em Processo Penal que exerci até a transferência para Porto Alegre. Ao todo 21 anos. Que somados aos três do curso de Filosofia perfazem quase um quarto de século nas rampas da FUnBa/Urcamp. Isso significa que vivi os "tempos românticos"dessa instituição, etapa assim chamada pois momento de pioneirismo, dos primeiros projetos e da dedicação intensiva; das primeiras lições de alguns professores que estreavam no magistério; da atenção e alegria de alunos neófitos a quem se desvendavam outros dogmas; dos instantes de afetuosa camaradagem e integração.
Assim, quando se festeja o cinquentenário desta época sinto que devo contar algumas achegas na arquitetura desta importante memória universitária.
PALADINOS DA IMPRENSA. Outrora os estudantes bajeenses tinham que se mudar para outras cidades, como internos ou hóspedes de casas de família, a fim de assomar os preparatórios em algum colégio e depois os vestibulares de medicina, engenharia, agronomia ou direito, que eram os cursos mais almejados. As moças buscavam Pedagogia ou Letras. As universidades eram poucas. Na década de 50, pelo empenho do empresário e político Antenor Gonçalves Pereira é criada a Faculdade de Ciência Econômicas, embrião do Ensino Superior em Bagé. Em abril de 1957, numa manhã, o avião da Varig não consegue decolar e sucumbe em doloroso acidente, falecendo vários conterrâneos, entre eles Antenor Pereira que levava volumoso processo para o Ministério da Educação, com plano de novos cursos. Há um hiato depois dessa tragédia.
Através do Correio do Sul o doutor João Coronel Sais, com o pseudônimo de Waldemar Muniz e incentivando a todos com o lema "Bagé, desperta e luta", escreve numerosos artigos propugnando a criação de uma Faculdade de Direito. No mesmo sentido o doutor Catalino Brasil Machado vem a somar-se na mesma senda com expressivos textos, embora, registre-se, que como sempre, apareciam pessimistas aludindo que "Bagé ainda não tinha condições" de possuir mais outro curso superior, crítica que no futuro se repetirá, em posição pouco sobranceira, mesmo quando se sonhava com uma universidade. É quando surge o abençoado tino de Attila Taborda. Em fins dos anos cinquenta, em vista de sua estreita relação com o Bispo Dom Antônio Zatera, da diocese de Pelotas, o benemérito médico estabelece um convênio com Faculdade Católica de Pelotas abrindo aqui os Cursos de Filosofia e Pedagogia, abrigados inicialmente na Faculdade Católica de Filosofia, Ciência e Letras de Pelotas. Logo, funcionando à tardinha nas dependências do Colégio Espírito Santos, o doutor Attila, agora bem assessorado pelo filho Tarcísio, então juiz em Encruzilhada e depois Pinheiro Machado, e pelo Padre Ângelo Visentin, começam a conceber a "Fundação Universidade de Bagé", logo "Faculdades Unidas de Bagé", quando os cursos de Filosofia e Pedagogia se unem à Faculdade de Ciências Econômicas e ao curso de Artes Plásticas, do Instituto Municipal de Belas Artes, constituindo o amálgama que seria a futura Universidade. A Faculdade de Filosofia e Pedagogia, ainda noviça, enfrenta naturais problemas em seus "anos dourados". Não eram muitos na cidade que tivessem graduação para lecionar. Muitas matérias eram ensinadas por professores tradicionais e cultos, mas sem formação específica, que contribuíam com seu esforço e talento. Houve certo instante em que alguns alunos dos "últimos anos", como Mercinha, Toralles, Pinheiro Grande e eu, já bacharéis em outros campos, acabaram lecionando para os "novatos" do vestibular para que o curso não fenecesse! E saibam de algo que hoje não se vê mais: desfile, festa e baile dos "bichos"; eleição da rainha universitária; jogos universitários entre as entidades existentes. Em dezembro de 1961 numa histórica solenidade acontecida no Cine Avenida a formatura da primeira turma de Filosofia e Pedagogia.
A CRIAÇÃO DO DIREITO. A cinquentenária Faculdade de Direito de Bagé foi imaginada e concebida por Tarcísio Antônio Costa Taborda. Como contei em outro ensejo: foi partejada no gabinete que Tarcísio ocupava no foro, então na esquina da Sete coma Carlos Mangabeira (hoje Centro Cultural que leva seu nome). Ali, enquanto despachava os processos, atendia as partes e dialogava com os advogados que no ambiente tinham seu ninho, Tarcísio foi estruturando a entidade, dando-lhe sopro e vida, escolhendo as disciplinas, elegendo e convidando os professores. Nisso, agora, já tinha dois acólitos fiéis e dedicados que foram de enorme importância para a organização que se desenhava: Carlos Rodolfo Moglia Thompson Flores e Davi Ulisses Simões Pires. Junto com Tarcísio deram os contornos legais à instituição. Prepararam o processo de licenciamento. E saíram para cumprir as diligências burocráticas que deram dignidade jurídica ao projeto. Em outubro de 1969, ano predecessor à instalação concreta de 1970, é a data que se comemora. Como disse acima foram "anos dourados". O primeiro vestibular. A turma original, muitos dos integrantes já graduados em outras faculdades, e que conseguiam realizar a expectativa antes impossível. Recordo que os professores ficavam ou iam à faculdade mesmo que não tivessem aulas, apenas para usufruir, confraternizar. Em muitos sábados se reuniam na casa do Juca Abero para estudar juntos e trocar ideias. O bar da esquina. As inesquecíveis histórias de um grupo que merece ter um redator para relembrar os episódios jocosos; as piadas, as brincadeiras; as "tiradas" que ainda hoje, depois de 50 anos, se recorda com sorrisos e saudades. Algumas alunas eram mestras consagradas como Edy, Zilá, Caetana, Ligia Almeida. As reuniões no escritório do Erly para assistir filmes "adultos". Miguel, Edgarzinho, Costinha, Fuchs. Os delegados de polícia, Ramayana, Bastos. Severinho. Cláudio Lemieszek era um cabeludo que tinha um fuscão preto que estacionava na Sete para ver a Maguinha passar. Déia. Verinha. Lugo, que virou juiz depois. E muito mais que narrarei depois. Os professores e suas cátedras. Dr. Telmo, Oswaldo Moraes, Rodolfo, Rubens Almeida, Mário Moura. Elza Garcia, a jovem que ensinava Psicologia Jurídica. Estanco o relato, com medo de que o sentimento obscureça a necessária lembrança.
ACONTECIMENTO HISTÓRICO. Em 1972, depois que Carlos Rodolfo e Davi Ulisses saíram pela América a convidar juristas e notáveis, aqui se realizou o I Encontro Latino americano de Metodologia do Ensino Jurídico e II Encontro das Faculdades de Direito do país. Bagé virou uma babel com a participação de professores argentinos, uruguaios, chilenos; mexicanos, hondurenhos; colombianos, venezuelanos, porto-riquenhos, peruanos, bolivianos; equatorianos, haitianos, pessoal das Guianas; e muitos nacionais.
De dia as palestras, comissões e plenárias, se espalhavam pelo espaço da FUnBa. Os hotéis se abarrotaram de estrangeiros; os donos de restaurantes, satisfeitos; moedas diferentes circulavam pela cidade; houve espetáculos de música e folclore; as lojas faturavam; boates; tradutores e intérpretes. A Churrascaria Sinuelo, de Alfredo Habiaga, era o refúgio noturno, ali se projetavam, no dia seguinte, fotografias dos clientes do dia anterior. Conferencistas, então pouco conhecidos, depois deste encontro ganharam fama mundial, como Jorge Moreno, Castañeda, Villegas, Vivanco, o grande Vernengo, Aderbal Meira Matos, Sérgio Bermudes, Caio Tácito.
Nunca, no meio universitário, Bagé viveu momento tão empolgante. E histórico, pois depois deste Encontro, rarearam os seguintes, acabando por desaparecer.
SEMANAS DE RECUPERAÇÃO. Tendo a Faculdade de Direito como "carro-chefe" da FUnba, para cá acorriam, duas vezes por ano, os alunos das cidades de Dom Pedrito, Caçapava, São Gabriel, Alegrete, Rosário do Sul, Pinheiro Machado, São Sepé, São Borja, Livramento e Uruguaiana. Eram os chamados "períodos de recuperação". Ou seja, os estudantes matriculados no Direito, mas que não podiam cumprir a frequência regulamentar, passavam uma semana ou até mais aqui na cidade, assistindo aulas e compensando suas carências. De novo, ganhavam os hotéis, os restaurantes, as lojas, os clubes, as boates, com a extraordinária presença daquelas pessoas. No "Distrito Universitário"- nome sonhado pelo saudoso Morvam Ferrugem para designar a parte da cidade acima do Colégio Silveira Martins e que abrange o alegre bairro aonde se situa a Urcamp, viam-se dezenas de ônibus, carros com placas diferentes. Também nestes episódios se construíram moradas e albergues para hospedar esses visitantes. As salas de aula acumulavam acadêmicos. As provas de avaliação eram tão rigorosas como as normais; os acadêmicos formavam grupos de estudos nas salas habituais. Por alguns anos tais semanas contaram com a chancela dos órgãos educacionais. Lamentavelmente foram extintas, o que obrigou a disseminação de campi pelas cidades então tributárias, fator que, sem dúvida, desidratou o desenvolvimento e liderança regional da faculdade.
(continuará)

 

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