ANO: 25 | Nº: 6386

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
02/11/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Na banguela

Na última terça-feira, por volta das sete horas da manhã, nossa comunidade foi acordada meio que no susto com uma tormenta daquelas que fazia tempos que não ocorria. Ventos que superaram os cem quilômetros por hora e, consequentemente, provocaram muitos estragos e transtornos de toda ordem. Mais uma vez viramos notícia nacional por conta das intempéries que, via de regra, entram no país pela nossa fronteira diagonal com o Uruguai.

Acompanhando as notícias e imagens pelas redes sociais, me chamou a atenção uma postagem de alguém colocando a culpa do ocorrido na falta de consciência ambiental de toda a população de uma maneira geral. Aquela velha história de que produzimos lixo demais, descartamos errado, consumimos produtos cuja fabricação, comercialização ou descarte são desaconselhados por ambientalistas, usamos plásticos demais e biodegradáveis “de menos” etc. Enfim, uma série de condutas e posturas que afetam negativamente o meio ambiente e que, por isso, deveríamos evitar. Algo não muito diferente daquilo que nossos médicos nos dizem no sentido de que devemos mudar nossos hábitos de alimentação e exercícios, mas que, invariavelmente, são desobedecidos pela maioria da população. Isto é, deixamos de fazer a coisa certa, não por falta de consciência, mas sim por falta de hábito.

Essa manifestação de indignação não é impertinente visto que, provavelmente, a maioria da população do planeta tem alguma responsabilidade nesse crescente agravamento dos fenômenos climáticos, ou seja, tudo indica que não há inocentes entre nós. Todavia, um alerta desses a esta altura dos acontecimentos é mais ou menos como tentar conter uma carreta carregada sem freio e na banguela. Tudo que for feito a partir de agora no sentido de criar uma cultura ambiental mais ativa e efetiva, só produzirá algum efeito prático décadas depois.

Tenho algumas dúvidas sobre a influência do ser humano nos fenômenos climáticos, mas, admitindo que seja verdadeira, o que estamos colhendo agora seria fruto de imensos e sucessivos descuidos ao longo de décadas e em escala global. Tudo bem que em algum momento algo precisa ser feito, mas, sinceramente, muito antes de colhermos resultados efetivos destas ações no sentido de reverter essa tendência, teremos que nos adaptar a estes eventos climáticos cada vez mais catastróficos. Estamos no caminho dessa carreta carregada, na banguela e sem freio e vamos ter que lidar com isso. Seja ou não culpa nossa, o agravamento dos eventos climáticos é uma realidade inescapável que já nos obriga a adaptar nossas construções, racionar água por longos períodos, melhorar o escoamento da água em função das precipitações torrenciais que desabam em curtos períodos, não subestimar a potencial gravidade das tormentas nem superestimar as previsões alarmistas, enfim, dar aos fenômenos climáticos a crescente atenção que eles estão a exigir, agir sempre com muita prudência e rezar para que ele nos poupe de grandes tragédias. Que Deus nos proteja!

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