ANO: 25 | Nº: 6486
06/11/2019 50 anos do Direito

A primeira das 90 turmas formadas pela instituição

Foto: Reprodução JM

Chegada de Davi Simões Pires com o reconhecimento da faculdade em 1974
Chegada de Davi Simões Pires com o reconhecimento da faculdade em 1974

Engana-se quem imagina o ambiente acadêmico destes primeiros anos como um reduto de jovens, recém-saídos do Ensino Médio, prontos para trilhar caminho pelo ambiente jurídico. Conforme relembra Cláudio de Leão Lemieszek, um dos 48 profissionais que se formou na primeira turma da faculdade, o grupo que inaugurou o curso de Direito era extremamente heterogêneo, muito diferente da realidade que seria vista a partir das próximas turmas. "Eu era o mais jovem da turma, com 18 anos. A turma era formada por pessoas adultas, a maioria acima dos 40 anos e já trabalhando", recorda.
Lemieszek recorda que a disparidade de idade com os colegas, apesar de benéfica em muitos sentidos, também foi sentida em outros quesitos muito apreciados pelos jovens universitários: festas e conversas de corredor. "No princípio, o saguão estava sempre vazio, não era como hoje, com toda aquela juventude circulando. Mesmo quando não estava muito interessado na aula, não podia matar tempo fora da sala porque não tinha onde ir nem o que fazer. Eu saia, mas como não tinha ninguém para conversar, acabava voltando. O pessoal era mais velho, mais focado. Quem não queria assistir aula nem ia", recorda, rindo.
Outro destaque, apontado pelo ex-aluno, é o grande esforço dos primeiros professores, que corajosamente assumiram a tarefa de repassar ensinamentos aos futuros profissionais sem nunca ter estado no papel de mestre. “Fomos, de certa forma, cobaias deles (dos docentes), mas extremamente privilegiados porque todos deram o máximo de si, até porque na época não tinham preparação pedagógica e era um desafio muito grande. Nossa turma já tinha profissionais, como oficial do registro de imóveis e três delegados (na época não era exigido o curso de Direito para essas profissões). Então, os professores tinham que estar efetivamente afiados, com domínio do conteúdo, porque estavam dando aula para profissionais”, recorda.
Mas se por um lado os professores eram estreantes nas salas de aula, por outro já haviam alçado seus nomes como grandes profissionais antes de ingressar no panteão acadêmico. É o caso de Mário Aguiar de Moura, civilista, autor de várias obras jurídicas usadas como referência em cursos de Direito, e o penalista paraense Oswaldo Moraes.
A qualidade desses profissionais, em sala de aula, foi comprovada, posteriormente, pelo grande número de aprovações de alunos da primeira turma em concursos para Magistratura e Promotoria de Justiça.
Mas antes de alcançar o reconhecimento fora do ambiente acadêmico, a turma teve que suar a camisa. Lemieszek relembra que, nas épocas de prova, os colegas formavam um grupo de estudo na casa de João Bosco Abero, também aluno da primeira turma. "Isso mostra o grande intelecto do Abero. Era nosso colega, mas dava aula para todos. Era de uma inteligência notável", recorda.
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O Dia do Pendura e outros episódios
Depois de tanto estudo, era natural que a turma buscasse um momento de confraternização e relaxamento. E foi assim que o tradicional Dia do Pendura, movimento nacional que celebra o Dia do Advogado, foi instituído em Bagé, garantindo muita alegria aos acadêmicos. Lemieszek explica que a data nada mais era que uma celebração dos estudantes à profissão, que saiam, à noite, para tomar uma cerveja e comer um aperitivo por conta dos proprietários dos estabelecimentos comerciais. “A gente saia da aula e ia para a Fruteira Bajeense, para o bar do Cimirro, comia e bebia e antes de sair um de nós dava um discurso, agradecia e deixava o dono do estabelecimento todo constrangido e não entendendo nada”, diverte-se.
Outro causo que ficou marcado na lembrança do advogado foi um tanto mais, digamos, inusitado. Conforme relatado acima, a turma contava com três delegados. Em um dado momento, dois deles se desentenderam por questões profissionais e brigaram. Em um dia, na hora da entrada para a aula, uma pequena faísca da discórdia acendeu, armas foram sacadas e a briga recomeçou. Mas a turma do deixa disso interveio e a situação não chegou às vias de fato. “Foi um momento bem tenso, mas que marcou muito”, disse.
Outro momento de tensão aconteceu às vésperas da formatura. Lemieszek recorda que a cadeira ministrada pelo professor Rubem de Almeida era uma das mais temidas, e não sem razão. No último teste, após enfrentar todo o curso sem uma reprovação, todos os 48 alunos amargaram baixas notas na avaliação, que foram recuperadas posteriormente, em um curso de verão. “Agora, eu dou risada disso, mas aquela época foi muito tensa, estávamos apavorados, achando que não nos formaríamos”, relembra.

RECONHECIMENTO
Meses antes da formatura da primeira turma, o curso ainda não havia obtido o reconhecimento da graduação por parte do Ministério da Educação. Em 1974, o então vice-diretor da faculdade de Direito, Davi Ulisses Simões Pires, foi a Brasília apressar o processo e, quando voltou, foi calorosamente recebido pelos professores e acadêmicos da FUnBa.
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O retorno à FUnBa no corpo docente
Após a formatura em gabinete, em 1974, Lemieszek saiu em férias antes de iniciar a carreira como advogado formado. Mas em janeiro de 1975 recebeu uma ligação surpreendente, que ditou os próximos anos de sua vida. “Estava na praia e recebi um convite para dar aula na FUnBa. Na hora, entrei em pânico, nunca tinha me passado na cabeça a ideia de ser professor, mas aceitei. Abortei as férias e voltei para Bagé para saber como dar aula”, recorda.
Ele iniciou sua trajetória como professor na cadeira de Direito das Coisas, no lugar do professor Davi Simões Pires, que havia sido escolhido diretor da faculdade e não conseguiria conciliar as duas atividades. Depois disso, Lemieszek também atuou como coordenador de Pesquisa e Extensão e, posteriormente, como Pró-reitor de Pesquisa e Extensão, além de fazer parte do grupo mobilizado em promover a FUnBa à universidade. “Sou filho da FUnBa, vivi uma grande parte da minha vida lá dentro. É a menina dos meus olhos”, destaca.

FORMATURA
Inicialmente prevista para os dias 14 e 15 de março de 1975, a formatura foi postergada em decorrência do falecimento de Attila Taborda, no dia 11 de março. A formatura aconteceu um mês mais tarde, em 12 de abril de 1975, no Clube Comercial. A turma, nomeada Davi Ulisses Simões Pires em homenagem ao diretor da faculdade, teve como orador o formando João Bosco Abero e o lema "Cedant arma togae", que significa "Cedam as armas à toga", expressão atribuída ao orador e político romano Cícero (106-43).

JOÃO BOSCO ABERO
Durante o processo de produção dessa revista, o egresso João Bosco Abero, figura tradicional da cidade, faleceu, deixando um legado de mais de 80 anos de cultura e saber. Formado na primeira turma do curso de Direito, ele foi o orador da turma na cerimônia, em 1975.
Em 2018, foi entrevistado em uma reportagem sobre o início do ano de celebração do cinquentenário do curso e afirmou: "A primeira turma teve um toque todo especial”. Relembrou, ainda, assim como Lemieszek, a heterogeneidade dos primeiros formandos. “Foi uma coisa extraordinária. Havia um grupo de pessoas, entre as quais eu me incluo, que tinha um curso secundário completo, mas que tinham parado no meio do caminho. Pessoas ainda jovens, mas já entre seus 30 ou 40 anos. Essa oportunidade era indispensável para toda essa gente”, declarou, à época.

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