ANO: 25 | Nº: 6486
06/11/2019 50 anos do Direito

Curso de Direito: cinco décadas de ensino, serviços prestados à comunidade e histórias

Foto: Reprodução JM

"Apraz me comunicar ao eminente amigo e conterrâneo que Ministros Militares assinaram, dia 16, decreto autorizando o funcionamento da Faculdade de Direito de nossa terra. Está assim concluído o processo em sua fase inicial, devendo no ano vindouro ter início os exames vestibulares".

Essas duas frases compuseram o telegrama que mudou a história do Ensino Superior em Bagé. Endereçada ao então presidente da Fundação Universidade de Bagé - FUnBa, Attila Taborda, o comunicado foi remetido pelo bajeense Favorino Mércio, chefe de gabinete do Ministro da Educação e Cultura no dia 18 de outubro de 1969. De lá para cá, meio século passou, mais de quatro mil profissionais foram formados pelo curso, que carrega uma história de luta, grandes nomes, qualidade de ensino e reconhecimento.
É bem certo que o curso só foi autorizado em 1969. Contudo, a instalação da faculdade de Direito em Bagé já era um sonho latente para os habitantes da Rainha da Fronteira desde a década de 1950. Mas o sonho só foi concretizado a partir de uma mobilização iniciada por Attila Taborda e o filho, Tarcísio.
O vestibular foi aplicado em fevereiro do ano posterior. Com a aprovação, cerca de 60 calouros foram matriculados para o primeiro semestre, cujo ano letivo iniciou em março de 1970, com aula magna a cargo do deputado Tarso Dutra, ex-ministro da Educação.

VESTIBULAR

O primeiro vestibular da FUnBa, já com a disponibilidade do curso de Direito, ocorreu durante os dias 3, 4 e 5 de fevereiro de 1970 e lotou todas as salas e, até mesmo, os corredores. Mais de 600 candidatos concorreram a vagas nos cursos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Faculdade de Ciências Econômicas e Faculdade de Direito.
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Testemunha ocular da História
Desembargador aposentado, José Carlos Teixeira Giorgis participou ativamente do processo de instalação da Faculdade de Direito em Bagé. Antes mesmo da chegada do curso, já fazia parte do corpo docente da faculdade lecionando “Antropologia Cultural”. A última cadeira em que atuou como titular na FUnBa foi Processo Penal, até a transferência para Porto Alegre, encerrando o ciclo de docência de 21 anos em Ciências Jurídicas. “Somados aos três anos do curso de Filosofia, perfazem quase um quarto de século nas rampas da FUnBa/Urcamp. Isso significa que vivi os 'tempos românticos' dessa instituição, momentos de pioneirismo, dos primeiros projetos e da dedicação intensiva; das primeiras lições de alguns professores que estreavam no magistério; da atenção e alegria de alunos neófitos a quem se desvendavam outros dogmas; dos instantes de afetuosa camaradagem e integração”, relembra.
Para dar sua contribuição à celebração do cinquentenário, Juca Giorgis relembra alguns fatos, que culminaram com a criação do curso. “Na década de 50, pelo empenho do empresário e político Antenor Gonçalves Pereira, é criada a Faculdade de Ciências Econômicas, embrião do Ensino Superior em Bagé. Em abril de 1957, numa manhã, o avião da Varig não consegue decolar e sucumbe em doloroso acidente, falecendo vários conterrâneos, entre eles Antenor Pereira, que levava volumoso processo para o Ministério da Educação, com plano de novos cursos. Há um hiato depois dessa tragédia”, recorda.
Foi através da imprensa que João Coronel Sais jogou a semente que, mais tarde, culminou com a criação da faculdade de Direito. O movimento “Bagé, desperta e luta”, que Sais assinava sob o pseudônimo de Waldemar Muniz, foi endossado, no final daquela década, por Attila Taborda, que estabeleceu um convênio com a Faculdade Católica de Pelotas, disponibilizando em Bagé os cursos de Filosofia e Pedagogia, funcionando nas dependências do Colégio Espírito Santo.
Foi nesta época que Taborda, junto ao filho Tarcísio, atuando na magistratura em Encruzilhada e Pinheiro Machado, e ao Padre Ângelo Visentin, começa a movimentação pela criação da “Fundação Universidade de Bagé”. A instituição passou a ser chamada “Faculdades Unidas de Bagé” com a união dos cursos de Filosofia e Pedagogia à Faculdade de Ciências Econômicas e ao Curso de Artes Plásticas, do Instituto Municipal de Belas Artes.
Giorgis aponta que a Faculdade de Direito de Bagé foi imaginada e concebida por Tarcísio Taborda, que foi estruturando a entidade, definindo as disciplinas, elegendo e convidando os professores, entre eles Carlos Rodolfo Moglia Thompson Flores e Davi Ulisses Simões Pires, que participaram desde o primeiro movimento. “Junto a Tarcísio, deram os contornos legais à instituição, prepararam o processo de licenciamento e saíram para cumprir as diligências burocráticas que deram dignidade jurídica ao projeto”, relembra.
O período que se segue, a partir da confirmação da instalação, em 1969, e o início das aulas, em 1970, é chamada por Giorgis como 'anos dourados'. “A turma original, em que muitos dos integrantes já eram graduados em outras faculdades, e que conseguiam realizar a expectativa antes impossível. Recordo que os professores ficavam ou iam à faculdade mesmo que não tivessem aulas, apenas para usufruir, confraternizar”, destaca.
Um dos pontos mencionados por ele, que encontra um ponto de convergência na narrativa do integrante da primeira turma, Cláudio de Leão Lemieszek, é o grupo de estudo na casa de João Bosco Abero. “As inesquecíveis histórias de um grupo que merece ter um redator para relembrar os episódios jocosos; as piadas, as brincadeiras; as “tiradas” que ainda hoje, depois de 50 anos, se recorda com sorrisos e saudades”, destaca.

JORNAIS DA ÉPOCA SOBRE O ENCONTRO
Em 1972, a FUnBa sediou o I Encontro Latino Americano de Metodologia do Ensino Jurídico e II Encontro das Faculdades de Direito do País. Na Rainha da Fronteira, reuniram-se argentinos, uruguaios, chilenos; mexicanos, hondurenhos; colombianos, venezuelanos, porto-riquenhos, peruanos, bolivianos; equatorianos, haitianos, pessoal das Guianas. Parte da história recente da cidade, o evento lotou hotéis e as ruas da cidade com grandes nomes do meio jurídico e acadêmicos de Direito.

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