ANO: 25 | Nº: 6386

Fernando Risch

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Escritor
08/11/2019 Fernando Risch (Opinião)

Vai entender a vida

Não sou religioso, não creio em carma, não creio em destino, não creio em nada disso. Canalhas nascem, vivem em suas canalhices e se vão canalhas, em paz, velhos e sonolentos, numa noite de sono, se esquivando de qualquer tipo de castigo em vida, qualquer punição pelo terror que suas existências proporcionaram.

Mas não estou aqui para falar de um canalha. Muito pelo contrário. Aliás, vou falar de alguém que sequer conheço. Vou falar do Roberto. Nunca o vi, nem pessoalmente nem de qualquer outra forma. Descobri de sua existência na sua ausência. Como eu, ele era um esportista. Como eu, ele corria. Tinha 55 anos e era uma pessoa saudável.

Vai entender. A vida tem dessas coisas. Variáveis de saúde e de hábitos. Tentamos fazer tudo aquilo que nos parece correto, até descobrirmos que não operamos pela lógica de um relógio, que o correto pode ser nosso ponto fraco, nossa fragilidade. Tentaremos achar explicação e não encontraremos. Nem agora, nem amanhã e nem em um milhão de anos.

Recordamos de conversas triviais, dias antes, horas antes, minutos antes, e nos damos conta de que naqueles momentos nada pode nos derrubar. Há a plenitude da vida, há a perspectiva do futuro, há os sonhos e as lutas que virão. Então vem o choque, o bonde incontrolável do aleatório, do imprevisível, do inesperado, que não vê o que tem pela frente e apenas nos arrasta. Ele não pede explicação e não dá explicação. Ele simplesmente acontece, por isso é mais doloroso.

As coisas acontecem. Acontecem e nos golpeiam. Golpeiam com tanta força que nos derrubam. E, no chão, a vida parece um grande nada, um pavio curto de memórias que não deveria acabar como acabou. Como Roberto, um corredor, gremista e, ao que me pareceu quando o conheci, sem nunca tê-lo conhecido, uma grande pessoa.

Fará falta. Talvez não para mim, mas para a Miche, para o Rypl e tantas outras pessoas. A vida seguirá, a minha, a sua e a de todas as pessoas que se mantém em pé. Porque a vida é canalha, ela segue acontecendo, o mundo girando e os cotidianos se colidindo. Seguiremos buscando respostas ao irrespondível. Seguiremos com hábitos nefastos e saudáveis, numa roleta de sorte e azar.

Mas levantamos, porque é o que podemos fazer, e lembramos que é o que nos resta fazer. Não passará, porém amanhã é um novo dia.

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