ANO: 25 | Nº: 6382

Airton Gusmão

redacaominuano@gmail.com
Pároco da Catedral
09/11/2019 Airton Gusmão (Opinião)

A esperança dos pobres jamais se frustrará


"Contemplar o Cristo sofredor na pessoa dos pobres significa comprometer-se com todos os que sofrem, buscando compreender as causas de seus flagelos, especialmente as que os joga na exclusão" (Documentos da CNBB 109; nº 102 e 110).
A pobreza é a característica mais determinante, gritante e escandalosa de nossa sociedade. São milhões de pessoas que vivem em condições sub-humanas, carecendo das condições materiais básicas de sobrevivência. Não é um fenômeno natural, fruto do acaso ou do destino; mas fruto de opções políticas e econômicas, consequência natural da riqueza ou acumulação de bens. No Brasil, temos hoje mais de 50 milhões de pessoas que vivem ou sobrevivem com apenas R$ 406,00 por mês, e mais de 15 milhões de pessoas na extrema pobreza que recebem R$ 140,00 por mês.
No final do Jubileu Extraordinário da Misericórdia (2015-2016), o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Pobres, a ser celebrado no penúltimo domingo do tempo litúrgico. Seu objetivo é recuperar e reavivar na Igreja um elemento requintadamente evangélico, isto é, a predileção de Jesus pelos pobres para que as comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor, sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais carentes.
Este ano o III Dia Mundial dos Pobres acontece no dia 17 de novembro, dentro da Semana da Solidariedade, que inicia a partir deste segundo domingo, com o Tema: "A esperança dos pobres jamais se frustrará", a partir da iluminação bíblica do Salmo 9,19. Trazemos presente alguns trechos da Mensagem do Papa Francisco para este III Dia Mundial dos Pobres. Esta frase bíblica, diz a mensagem, "expressa uma verdade profunda de que a esperança perdida às injustiças, aos sofrimentos e à precariedade da vida, será restabelecida; bem como invoca o juízo de Deus para que retorne a justiça e seja vencida a iniquidade".
A mensagem continua afirmando: "quantas vezes vemos os pobres nas lixeiras a catar o descarte e o supérfluo, a fim de encontrar algo para se alimentar ou vestir! Tendo se tornado, eles próprios, parte duma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo".
Retomando a realidade e a identidade dos pobres, o texto assim se expressa: "o contexto descrito pelo salmo tinge-se de tristeza, devido à injustiça, ao sofrimento e à amargura que fere os pobres. Pobre também é 'aquele que confia no Senhor', pois tem a certeza de que nunca será abandonado. Na Escritura, o pobre é o homem da confiança e, o motivo desta confiança, é que ele 'conhece o seu Senhor' (Sl 9,11) e, na linguagem bíblica, este 'conhecer' indica uma relação pessoal de afeto e de amor".
O texto afirma que "na Sagrada Escritura, para onde quer que se volte o olhar, a Palavra de Deus indica que os pobres são todos aqueles que, não tendo o necessário para viver, dependem dos outros; e que perante esta multidão de indigentes, Jesus não teve medo de Se identificar com cada um deles, quando afirmou que 'sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes' (Mt 25,40). Esquivar-se desta identificação equivale a ludibriar o Evangelho e diluir a revelação".
O Papa Francisco convoca-nos ao compromisso com os pobres, dizendo: "Queridos irmãos e irmãs, exorto-vos a procurar, em cada pobre que encontrais, aquilo de que ele tem verdadeiramente necessidade; a não vos deter na primeira necessidade material, mas a descobrir a bondade que se esconde no seu coração, tornando-vos atentos à sua cultura e modos de se exprimir, para poderdes iniciar um verdadeiro diálogo fraterno".
E continua a mensagem: "nunca vos esqueçais que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. Antes de tudo, os pobres precisam de Deus, do seu amor tornado visível por pessoas santas que vivem ao lado deles; eles precisam das nossas mãos para se reerguer, dos nossos corações para sentir de novo o calor do afeto, da nossa presença; por vezes, basta parar, sorrir, escutar. Os pobres não são números; são pessoas a quem devemos encontrar. Os pobres salvam-nos, porque nos permitem encontrar o rosto de Jesus Cristo".
Não há uma única receita ou forma de compromisso com os pobres. Implica proximidade e escuta, acompanhamento e partilha espiritual, assistência em suas necessidades imediatas, luta por seus direitos e pela transformação da sociedade. Temos muitas e diversas referências em nossa tradição eclesial sobre o compromisso com os pobres: Francisco de Assis, Vicente de Paula, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, Oscar Romero, Helder Câmara, entre tantos outros. O compromisso com os pobres é tarefa de todos, na Igreja e na sociedade.
Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade!

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...