ANO: 25 | Nº: 6382

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
09/11/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Abero e Habiaga (parte 1)

Estava na espera da podóloga. E na antessala revistas para distrair até a consulta. Atrai-me a que aparentava esotérica. E um texto astrológico. Desde já informo que, outrora, fui disciplinado aluno em estudo dos astros. Aprendiz volúvel e dispersivo, logo outra mania cativa minha curiosidade. Foi-se a intenção de comprar turbante e produzir mapas. Mas ficaram conceitos. Numa página defronto com a informação de que fins de outubro até meados de novembro aconteceria o "Mercúrio retrógrado". Tremem os aguapés. Pois o adjetivo que acompanha o símbolo do comércio, aquele deus com asinhas nos pés, significa retrogressão, recuo, atraso. E catastrófico lembrei que ia viajar algumas vezes. Não era período para tanto. Dizem que essa etapa de 24 dias que acontece três vezes ao ano favorece a comunicação complicada; os males entendidos; as confusões; o risco de mágoas; a dificuldade em concluir trabalhos; viagens temerosas. O lado positivo: tempo bom para meditação. Fazer introspecção. Quando semanas depois o avião aterra a rotina faz sinal.
Na quinta-feira passada, no tribunal, sou o último a sustentar determinado recurso perante um grupo jurisdicional. Já era noite quando uso o aplicativo para voltar para casa. Abro rede social quando estala a notícia sobre Juca Abero. Não o sabia em Porto Alegre, muito menos que estivesse enfermo; e hospitalizado. Ao contrário, eu preparava alguns poucos volumes de um ensaio que escrevera para que divulgasse na Feira aonde seria justíssimo patrono. A reação que se tem nesses episódios é o silêncio e o acabrunhamento. E a imersão no tempo passado, a fruição das lembranças. Como disse num escrito digital éramos os "Juca" da zona no início da adolescência. Quase vizinhos. Ele residia na casa do seu Paulo ao lado de um açougue que se colava ao consultório do Dr. Camilo. Perto da esquina da Bento Gonçalves, aonde eu morava passando a esquina em direção à Praça da Estação (quantos ainda existirão da turma que nos dias de chuva se amontoava na porta do consultório? Léo, Lalalo, Pituca, Zico, Djalma, Avadil, Gabriel, Dimar, Menotti, Ito, George, Walfredo, Ernani, os Jucas, quantos sobraram?). Abero era um menino esguio, nas suas bombachas e alpargatas, o guri da Mina, sotaque castelhano; um irmão mais velho e uma cintilação de belas manas que embelezam a quadra, a casa era uma algaravia de sons e risos. Ainda aluno do primário o convenci de prestar o exame de admissão. Ele resiste, modesto, já destacado por sua inteligência e talento. É que nosotros já assistiam aulas com a dona Noca e a dona Gilda. Mas enfrena o pingo e brilha. Completamos o ginásio juntos, muitas vezes ele compareceu entre os melhores de sua aula na edição do "Meu Colégio". Já no tempo da zona ele poetava. Lia bastante. Estava a par dos melhores romances. No hiato que vim para capital ele aprofundou sua formação e ideologia. Frequentava com o Ito, seu grande amigo, o "Grupo de Bagé", Ernesto Wayne. Dessa época é "Tisna", livro de apurados sonetos que havia prometido reeditar, ante minha insistência. Segue o seu período de militância em prol dos direitos sociais, dos trabalhadores e dos campesinos. Em 1963 fomos candidatos à vereança. Um no Partido Republicano, sigla aonde se abrigavam os socialistas; e eu no Partido Trabalhista. Depois disso, em 1977, quando ele já retornara do exílio, após nossa absolvição em processo contra os "subversivos" locais, foi publicada "Panela do Candal", sob as instâncias do juiz Orlando de Assis Corrêa, reunindo os contos de Ernesto Costa; Pedro, Ernesto e Ramão Wayne; Iolanda Abero; Luís Cândido Campos; Orlando Correa; Protásio Maciel; Sílvia Kopp Santos; Sólon Loureiro Filho, além do signatário, tudo prefaciado por Wilson Afonso dos Santos. Os contos do Juca "Manual dos namorados" e "Cocota" se inscrevem entre os melhores já escritos. Neste tempo já era advogado, fora da primeira e excepcional turma da noviça Faculdade de Direito. Nos primórdios, nos sábados, alunos e alguns professores iam para a cada de Juca e Uiara, e no porão se instalava aulas ministradas por ele, recuperando matérias diversas. Orador de sua turma, foi advogado competente e liderou a classe como presidente da subseção da OAB. Sempre falava em completar a ideia que concebera nas idas ao cemitério, quando ele, Ernesto de Bem e Ito desciam a Sete, após jogar xadrez no Clube e visitavam o campo-santo: os tais de mil jazigos, que logrou publicar recentemente, com real apreço e elogios da crítica literária. Em 1998, quando já morava em Porto Alegre, recolhi um importante texto filosófico que ele desejava editar e o fiz com o título de "Linguagem versus Realidade", enobrecido com as ilustrações de Edmundo Rodrigues, outro grande amigo. Texto profundo, expressivo, um credo e lição. Sua convivência com o grupo de pintores bajeenses deu-lhe grande conhecimento de pintura, arte de que detinha especial expertise. Como já afirmei, sem parcialidade ou exagero, Juca Abero era o mais importante intelectual contemporâneo de Bagé, e orgulho de seus afetos Uiara, Ana Augusta, Jackson e Antônio e dos amigos. Sobre o amor, dizia ele que a palavra energia só tem sentido especial quando sinônimo do amor. "Esse sentimento é a única força criadora que não tem origem e nunca se esgota". Sábia lição.
O que faria se, de repente, lhe dissesse que Habiaga havia falecido? Certamente conteria o sorriso, não pode ser, "deve ser mais uma chacota dele" o "eterno brincalhão". Pois...
Incrível o convívio na grande cidade. A gente, por mais amigo, custa a se encontrar, cada um ocupado com seus lazeres, sempre uma desculpa para o desencontro.

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