ANO: 26 | Nº: 6590

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
12/11/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

A dança de salão e a autodescoberta do casal

Frequentemente sugiro a casais em dificuldades de comunicação que procurem por uma atividade que possam fazer juntos. Não é raro que eu indique aulas de dança de salão.

Dançar é uma experiência revitalizante da relação, pois proporciona novas perspectivas, novos enfrentamentos e principalmente uma visão nova da mesma pessoa. O relacionamento a dois é diariamente desgastado pela rotina e pelos conflitos da vida em geral. Isso tudo faz com que os parceiros tenham uma ideia congelada de si mesmos e da outra pessoa. Com o tempo, muitas vezes, a espontaneidade e o frescor do contato vai se esvaindo.
A dança de salão coloca dois corpos frente a frente em movimento, tendo que respeitar o ritmo da música e o estilo de movimentos de cada um, impondo a leveza e a disposição para o improviso – o que representa em muito os desafios da vida, que não pode ser coreografada. Além disso, o salão tem suas convenções e regras a serem seguidas além da música, a condução que é responsabilidade do cavalheiro, o que não pode ser confundido com machismo. Há um equilíbrio entre as duas forças: levar e deixar levar-se. Mais um simbolismo de tantas outras situações da vida a dois onde a flexibilidade é importantíssima.
Há algum tempo tive a oportunidade de questionar professores de dança de salão sobre a transformação na vida do casal depois da experiência da dança. Salientaram dois aspectos que considero fundamentais em qualquer relação. A projeção e controle. O casal chega para as aulas com vícios do dia a dia, jogando a culpa no outro pelos erros, pelas dificuldades, etc. Mas quando é sugerido que o casal dance com outros parceiros o mesmo erro acontece e a justificativa cai por terra. Surge aí a possibilidade de responsabilizar-se pelo que parecia estar presente somente na outra pessoa, um despertar para outros aspectos da vida deste casal, um perceber-se e perceber o outro de forma diferente, ampliando o respeito e a sintonia.
O controle é um assunto muito forte quando o tema é casal. Na dança, a condução não pode ser interpretada como controle, pois implica em feeling, respeito com o corpo e sensibilidade da parceira. Do ponto de vista da mulher, que hoje em dia sobrecarrega-se de tantas responsabilidades, não é fácil abrir mão do ímpeto de comandar e permitir-se deixar levar. Tal exercício promove equilíbrio, bem-estar e harmonia em interagir sem vencedor ou perdedor.
Por fim, foi-me destacado outro ponto nevrálgico das relações de casal, o ciúme e a posse. Nas aulas de dança de salão o casal dança com outros parceiros e isso mobiliza sentimentos e emoções que estavam cristalizadas como a ilusão de que o outro é seu. Ver o parceiro ou parceira interagindo com outras pessoas pode ser uma poderosa ferramenta de autopercepção e descoberta de como vai a interação com esta pessoa que não é um objeto que se possa possuir.
Por possibilitar tantas percepções e crescimento recomendo esta prática para aqueles que querem enriquecer seu relacionamento.

 

 

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