ANO: 25 | Nº: 6399

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
15/11/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Abero e Habiaga (Parte 2)

O que faria se, de repente, lhe dissesse que Habiaga havia falecido? Certamente conteria o sorriso, não pode ser, “deve ser mais uma chacota dele” o “eterno brincalhão”. Pois...Incrível o convívio na grande cidade. A gente, por mais amigo, custa a se encontrar, cada um ocupado com seus lazeres, sempre uma desculpa para o desencontro.
Há um ano, também em Finados, Habiaga e eu combinamos um café. No meio do trajeto, desviamos a rota e fomos visitar o José Américo, adoentado, companheiro desde Bagé e especial amigo dele, estima reafirmada na Casa Civil, aonde estivemos no governo Colares todos sob o convite a gestão de Mathias Nagelstein. Ficamos a tarde recordando tais momentos, enquanto Zé Américo apenas nos espiava com os olhos fixos e alguns balbucios. Voltei a encontrar Alfredo Antônio Habiaga exatamente no dia 2 de novembro. Era domingo, aguardava os amigos para o encontro dominical numa padaria. Outra vez abro o celular. Depois de longa mudez com o aviso, tomo o táxi e rumo para a necrópole para comprovar se era verdade ou alguma piada de algum parceiro. Infelizmente, desta vez, era sério: lá estava Habiaga, elegantemente vestido, coberto os pés com o lábaro jalde-negro do G.S. Bagé. Ele tinha a mania de ir aos hospitais visitar amigos e pedir que levassem um bilhetinho para outrem que houvesse partido para os campos verdejantes do paraíso. Muitas vezes, quando ele próprio se tinha de recolher a algum tratamento, transformava a cirurgia numa brincadeira, sempre teve com a doença uma relação amistosa. Além dos estudos habituais o "filho de dona Querida" destacou-se pelo talento, além de sua natural verve para a brincadeira. Em Bagé foi competente funcionário de banco estatal, o que até prosseguiu, por determinado tempo, aqui, em Porto Alegre. Em agosto e setembro de 1963, nesta capital, participou com destaque, na organização e atuação na Universíade, fato esportivo histórico no Rio Grande do Sul, pela exitosa reunião de acadêmicos de todo o lado em diversas competições abertas pelo campeão olímpico Ademar Ferreira da Silva. Nesse evento, Habiaga conviveu com dirigentes universitários que haveriam de se destacar em plano nacional, firmando com eles dedicada colaboração. Torcedor fanático do G.S. Bagé, ali Habiaga começou sua saga como goleiro.
Nas voltas de 1956/57 a turma que se reunia no Clube Comercial e que partia aos sábados, à tarde, para os bairros e campos de terra para disputar refregas futebolísticas resolveu criar uma entidade, que viria a suceder a Associação Atlética Bajeense, e que por ideia dele e outros deu origem ao "Gente Bem Futebol Clube", caracterizado em suas primeiras partidas por atuarem os atletas com camisa social branca e gravatinha preta. A foto histórica do Gente Bem, em jogo, no então areião do Colégio Auxiliadora, mostra Habiaga como goleiro. E assim seria por muito tempo até ser substituído pelo saudoso Homero Karam. A posição de goleiro não foi abandonada, tanto que foi titular do Cruzeiros de Porto Alegre. Lá, nas exéquias, Miquinha me observou que faltava a bandeira do Cruzeiro, onde Habiaga estreara "sofrendo" quatro golos. Recordo dele, quando se uniu com sua amada Ivone e foi morar próximo à Praça das Carretas. E as visitas que com Ely Goulart, seu outro grande amigo, fazíamos ao novel casal, único momento em que ele era obrigado à seriedade de dono da casa, apesar de nossos gracejos. Quando Alceu Colares foi eleito governador e Mathias nomeado Chefe da Casa Civil, Habiaga e muitos vieram para a Casa Civil. Recordo o dia da posse de nosso conterrâneo, Habiaga e eu já nas dependências do setor quando desceu solitário e desacompanhado o então governador Sinval Guazelli, bem traduzindo a tristeza dos que deixam algum posto. Os tempos da Casa Civil foram memoráveis e para muitos que os sucederam não se igualaram os ali vividos pelos bajeenses. Habiaga nasceu também para ser pessoa para aquele encargo, principalmente para o tratamento com os visitantes em políticos. Organizado, habilidoso, afável, pronto a interceder, Habiaga se destacou num mister tão relevante para a administração. Por outro lado, além do convívio diário e constante, a sala que antecedia o gabinete do Mathias, aonde se situavam os assessores, era motivo de atenção aos convidados e respeito às pessoas, mas também, nas horas de folga, de alegre jocosidade aonde luzia o a ironia e criatividade do Habiaga em armar situações gozadas. Ali também desenvolveu sua acuidade política, seu profundo conhecimento de deputados e secretários, de funcionários ou partidários. Mesmo após a ida de Mathias para o Tribunal Militar, Habiaga permaneceu na Casa Civil, agora na Assessoria Administrativa, sempre prestigiado pela ciência e habilidade que desfrutava, transferindo-se depois para a bancada legislativa do PDT, onde se inativou, integrado a seus quadros. Mais não é apenas por isso que Alfredo Habiaga foi importante. Mas por haver sido um filho dedicado aos pais e parentes. Por ter sido um esposo exemplar e prestimoso para Ivone, cujas cinzas o acompanharam para a eternidade. Na alegria e na dor, aqui ou em Cidreira, aonde tiveram seu ninho por anos. Por ser um pai presente com os filhos Alfredo Filho, José Eduardo e Gleice, a quem dedicou toda afeição e empenho, desvelando-se em cuidados e assistências. A lealdade era sinal de seu caráter. Solidário com os amigos, não lhes faltava o apoio e ajuda. Na sua despedida lá estavam seus parentes e conterrâneos. José Carlos Marques, amigo de muito, fez a prece derradeira. O governador Colares, com Neusa, realçava sua dedicação. O PDT fez também sua homenagem. Os companheiros do restaurante do Chico. E da rua da Praia. Helenara, viúva de Mathias, seu especial amigo, e sua nora. Rebeca e filhos. Maneco e Ana Luíza. Gauchão e filha. Bosco, Erling, Nicoloso. Rodrigo. Denise e Afrânio. Gente que esteve no governo pedetista. Jornalistas, como Bastos e Batista Filho. Pessoas outras que ele ajudava ainda. Serviçais agradecidos. As coroas fúnebres.
(Mais) dois amigos que se foram. Tempos de Mercúrio retrógrado. Como dizia o poeta, antes os caminhos iam, agora eles vêm. E como são rápidos, benza Deus.

 

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...