ANO: 25 | Nº: 6460

Fernando Risch

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Escritor
15/11/2019 Fernando Risch (Opinião)

Precisamos chamar as coisas pelo nome

Era uma vez na Itália. Um pessoal um tanto quanto desajeitado, insatisfeito e irritado fundou um partido. O nome desse partido é oriundo da palavra “feixe”. Do latim, “fasces”. A ideia por trás desta designação era formar uma “aliança” entre as várias parcelas produtivas da sociedade, designadas pelo seu líder, é claro. Mas por que feixe?

Porque simboliza o feixe de varas amarradas, aí a noção de aliança (uma vara se quebra, mas o feixe não), que juntas seguram um machado. A ideia vem do Império Romano, onde pessoas de poder utilizavam deste machado para decapitar aqueles cidadãos desobedientes, claro, de acordo com sua avaliação das pessoas de poder. Era só mandar e a cabeça já rolava. Uma cena maravilhosa.

Na Itália, esse tal partido político fez um sucesso tremendo. O que eles falavam era lei. Mandou? Executou. Coisa de louco. Chegaram ao poder com tudo e só foram cair lá em meados de 1940. Seu líder, uma espécie de duque, além de um grande orador, mostrou-se um belo ginasta no dia em que o partido acabou. Insatisfeito com o rumo das coisas, em protesto, ele ficou de cabeça pra baixo do alto de uma ponte, uma peripécia digna de um atleta olímpico. Sua atuação de ponta-cabeça levou o povo italiano à loucura. Que festa!

Mas antes do tal duque contorcionista mostrar suas habilidades na ponte, um grupo brasileiro mostrou imensa simpatia pelo tal partido e suas ideias. Em 1932, um nobre brasileiro fundou, no auge de feixes europeus, um movimento inspirado no tal duque. Esse movimento era representado pela letra sigma, num fundo azul e branco. Copiado e colado da Wikipedia, eram um “movimento ultranacionalista, corporativista, conservador e tradicionalista católico de extrema-direita”, baseados na tríade "Deus, Pátria e Família".

Eles andavam vestidos de verde dos pés à cabeça e cada vez que ele se encontravam, eles gritavam “anauê!” e erguiam o braço esticado, com a mão espalmada, exatamente como o pessoal vestido de preto do duque fazia na Itália e como uma outra galera vestido de marrom fazia na Alemanha, mas não vamos botar esses nesta história, apesar de ter existido uma ala no movimento que gostava muito desses alemães. O movimento até usava uma braçadeira representando suas cores e o sigma, seu símbolo.

Há quem discorde que eles eram como os “feixistas” italianos. Membros do grupo da época escreveram sobre isso, afirmando existir uma ala dos “feixes” no movimento, mas que grande maioria eram estudantes que se posicionavam contra esse pensamento. Tudo bem, vamos aceitar, apesar de todas as inspirações e coincidências.

Fato é que há muita dificuldade para classificar este movimento brasileiro de outrora. No Brasil atual, por exemplo, nós tentamos constantemente dar nome aos bois e acabamos falhando por imprecisão, muito porque temos muita dificuldade em classificar as vertentes políticas e seus personagens. Ah, este maldito espectro direita-esquerda-liberal-conservador. Mas seguimos tentando dar nome a tudo.

Avançando mais um pouco, teve outro partido brasileiro interessante que vale nosso tempo. Outra espécie de aliança, criada em 1965. Essa aliança teve grande protagonismo no País nos anos de 1960 e 1970. Era estranho. A voz deles parecia sempre mais alta que a do pessoal do outro partido (só existiam dois). Os chefes deste partido, do alto escalão, eram linha dura, de difícil diálogo. Mandou? Executou. Coisa de louco.

Pois bem, está surgindo um novo partido no Brasil. É uma espécie de aliança para unir os setores produtivos da sociedade, excluindo os vagabundos, é claro. O partido tem como lema “Deus, Pátria e Família” e vem com tudo. Seu líder gosta muito desta aliança brasileira mencionada no parágrafo anterior. Por ele, voltava tudo isso daí. Ah, que sonho delicioso! Ninguém ficava reclamando como agora. Acontece alguma coisa, vai todo mundo pro Facebook reclamar.

Talvez seja o momento de chamarmos as coisas pelo nome. Agora, neste exato momento. Se passarmos a ignorar as evidências, mesmo que vagas, e resolvermos fazer malabarismo com as palavras, num “não é bem assim” quase em uníssono, depois poderá não haver voz para dar nome aos bois nem ar para que ela se propague ao ouvido.

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