ANO: 25 | Nº: 6486

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
21/11/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Novos filhos

Nada é mais rarefeito na juventude contemporânea do que a ideia de responsabilidade. Mesmo diante de exceções, não há exagero nessa afirmação. Para esta geração que nunca passará de um simulacro de ser humano, a mera perspectiva de obrigação incomoda, oprime e abate de forma violenta a prazerosa mentalidade fútil que parasita seus corpos. Como um espírito maligno, deveres e compromissos são entidades que devem ser exorcizadas.

Criados por reprodutores que lhes estimularam a “aproveitar a vida”, a não se “apegar” a compromissos amorosos, a ter sucesso profissional a todo custo e a não constituir família e ter filhos “tão cedo”, esses jovens foram doutrinados para uma boa vida sem sacrifícios. Portanto, festas numerosas, dedicação para uma carreira que lhes traga retorno financeiro sólido, entremeados por namoros fugazes e sem a menor perspectiva de profundidade, formam os restos mortais destes decadentes zumbis hiperconectados na ausência de sentido existencial.

Com isso, o culto ao hedonismo é a única válvula de escape para mentalidades que são apaixonadas pelo egoísmo. Em 08/10/2019, Michael Hendrix, em artigo para o City Journal, informou que nas grandes cidades norte-americanas é mais comum encontrar animais de estimação do que crianças, enfatizando que nestas cidades há uma queda significativa no número de famílias com filhos e um aumento de moradores que possuem formação universitária, mas não tem descendentes. Não à toa, os norte-americanos gastaram US$ 70 bilhões em cuidados com pets, ao passo que despenderam somente US$ 59 bilhões com crianças no ano passado. Nos EUA não faltam creches para os estimados animaizinhos (não falo de algumas crianças...) que guardam regalias peculiares: chefs, motoristas e quartos privados maiores que de muitos seres humanos.

No Brasil, em 2015, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os lares brasileiros eram responsáveis pelos cuidados de 52 milhões de cães (sem contar gatos e outros animais) em oposição a 45 milhões de crianças. Já em setembro de 2019, uma reportagem da Revista Crescer afirmou que, em pesquisa recente, nos EUA, 34% dos pais prefere o animal de estimação ao próprio filho, complementando que para 54% desses pais, seus pets lhes entendem melhor do que qualquer ser humano. Ou seja, para um número considerável de “reprodutores”, seus rebentos são menos amados do que seus pets. Novos tempos...

É óbvio que o resultado de anos de esfacelamento da ideia de casamento e do reforço da perspectiva de que o corpo alheio é um parque de diversões sem o assombro que o “trem fantasma” dos filhos pode causar, só seria capaz de produzir uma cultura que desvaloriza o humano. Animais não falam, demandam pequenos cuidados e seu processo “educacional” é de baixa complexidade. Filhos são o oposto e exigem hercúleas abnegações e responsabilidades em prol de seu desenvolvimento, algo odiado pela cultura dos intrépidos hedonistas.

Certa feita, o grandioso Chesterton disse que “a coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”. Prenda, minha madura amiga Pequinês, que neste momento supervisiona disfarçadamente meu filho, Joaquim, declarou que Chesterton nunca esteve tão certo e rosnou: “Pai, perdoai estes animais; porque não sabem o que fazem”.




Nada é mais rarefeito na juventude contemporânea do que a ideia de responsabilidade

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