ANO: 26 | Nº: 6590

Fernando Risch

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Escritor
22/11/2019 Fernando Risch (Opinião)

Morgan Freeman


Ninguém é obrigado a concordar com ninguém, essa é a beleza da democracia. Ninguém, também, é obrigado aliar-se a movimentos e causas só porque esses os atingem. Assim, existem duas formas de se discordar de algo. A primeira, com omissão. Não se fala sobre o assunto e automaticamente se está do lado discordante, mas sem posicionamento claro. A segunda, se expressando. Nesta, se diz abertamente o que pensa, com efeitos e consequências geradas.

Durante o mês de novembro, especialmente perto do dia 20, um vídeo antigo de Morgan Freeman sempre circula pelas redes sociais, em que o ator se diz contra o Dia da Consciência Negra. No vídeo, Freeman fala que a sua história e a história dos negros não podem ser resumidas a um mês ou um dia, que para o resolver o problema do racismo, não se deve falar sobre o assunto, que se deveria ter um "Dia da Consciência Humana" e não apenas negra, porque não existe o "Dia da Consciência Branca", por exemplo.

Morgan Freeman não é obrigado a se associar à causa, ele não é obrigado a aceitar e dizer amém ao que ele não acredita, mas Morgan Freeman é negro, famoso e um dos maiores atores de todos os tempos, com interpretações históricas em papeis emblemáticos, como em Invictus, na pele do presidente sul-africano Nelson Mandela, um símbolo por igualdade racial no mundo. O ator poderia se omitir, mas preferiu se pronunciar contrário.

Lembremos, ele não é obrigado a se aliar a qualquer pauta, mas ao negá-la, Freeman prestou um desserviço à causa negra. O vídeo em questão geralmente é compartilhado por brancos, e, geralmente também, potencialmente racistas. Racistas porque os incomoda ter um maldito dia, dentre 365 do ano, para falar sobre as mazelas sofridas pelos negros, pelo racismo nosso de cada dia. Trazer nosso racismo à tona para curá-lo incomoda os que querem a manutenção do status quo da desigualdade, e ignorar a história de luta e sofrimento por puro conformismo é um primeiro passo para relativizar tragédias e perpetuar uma cultura racista.

A posição já citada de Morgan Freeman, como ator, negro, famoso e conhecido por interpretar no cinema figuras negras emblemáticas nas causas raciais, dá ao racista potencial a liberdade de soltar todo seu rancor contra um período de reflexão profunda sobre a posição do negro na história e na sociedade atual. Porque se Morgan Freeman, esse ator, negro, famoso, conhecido por interpretar negros históricos na luta racial é contra, então eu também posso ser.

Entende-se o posicionamento de Morgan Freeman, é um pensamento finalista, de como o mundo deveria ser, mas não é. Numa comparação simplista, o Outubro Rosa existe por uma razão: porque o câncer de mama é o segundo tipo que mais acomete as mulheres brasileiras, representando 25% dos cancros que afetam o sexo feminino. Com uma estatística alarmante como esta, há de se ter o Outubro Rosa para que, em pelo menos durante 30 dias no ano, as mulheres se lembrem de fazer o autoexame. Não que elas só possam ou devam fazer o exame em outubro.

Na nossa sociedade, vinda de 300 anos de escravidão, os negros têm menos oportunidades de estudo e emprego, recebem salários menores, ocupam pouquíssimos cargos de chefia e de alto escalão, são os que mais morrem pela mão da polícia (na grande maioria homens e jovens), dentre uma inimaginável lista de situações que fazem dos negros no Brasil injustiçados por uma herança maldita de três séculos. É um problema, é gravíssimo e precisa ser encarado.

Esse é o objetivo do dia e mês da Consciência Negra. Não é para resumir a vasta e rica história da negritude em um curto espaço de tempo. É um dia de reconhecer problemas, encará-los e enfrentá-los, de relembrar as dores e injustiças acometidas aos negros ao longo dos séculos, das desigualdades latentes na sociedade, dos avanços e de todo o caminho que ainda falta trilhar para um mundo mais justo entre etnias, o mundo que Morgan Freeman menciona, onde não há a necessidade de se falar sobre as coisas porque não há problemas graves nelas a serem resolvidos.

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