ANO: 26 | Nº: 6523
22/11/2019 Opinião

Por que consciência negra?

por César Jacinto
Professora

A incessante luta do povo negro pelo reconhecimento do seu protagonismo na busca de condições de igualdade de oportunidades numa sociedade marcada por desigualdades é um fator relevante no posicionamento desse segmento populacional na contemporaneidade. Uma das conquistas mais importantes do Movimento Social Negro foi o reconhecimento do dia 20 de novembro, que assinala o desaparecimento de Zumbi dos Palmares como dia nacional da Consciência Negra proposto pelo grupo Palmares em 1971, formado por intelectuais e estudantes negros em Porto Alegre, destaque para o professor e poeta Oliveira Silveira, hoje considerado o poeta da Consciência Negra, a iniciativa foi acolhida pelas organizações do movimento negro em todo país, tornando-se posteriormente nos anos 2000 data oficial do calendário brasileiro, feriado em alguns estados e centenas de município.
Em determinadas ocasiões tenho ouvido algumas colocações de que deveria haver o dia da consciência humana e não da consciência, pois defendem que a raça humana é única, diferente de outras espécies, entretanto essa parcela não percebe ou não quer perceber que num país em que o termo raça foi utilizado como forma de 'racializar' e justificar a escravização de africanos em função da cor da pele sendo atribuídos adjetivos pejorativos, como preguiçosos, fetichistas e malandros, sendo argumentos legitimados ao longo da história pela cultura eurocêntrica e reproduzidos na atualidade.
Já na argumentação de intelectuais e militantes negros como: a Dra. Nilma Gomes e o Dr. Kabengele Munanga, o termo raça não deve ser compreendido apenas no sentido biológico, mas num contexto social, político e antropológico, visto que a ressignificação da palavra raça confere uma perspectiva de resistência e afirmação de identidades constituídas na organização da militância negra. Exaltar a negritude não é sinônimo de discriminação, mas de orgulho ao legado de conquistas, de respeito à ancestralidade e de um presente de lutas. O dia da Consciência Negra numa sociedade racista consiste em reconhecer tudo isso, de reverenciar homens e mulheres de todas as gerações que dedicaram suas vidas a conquista de espaços num território hostil, onde ter a epiderme escura significou sempre dificuldades e barreiras a serem transpostas.
O racismo em nossa sociedade se dá de um modo muito especial e sui generis: ele se afirma através da sua própria negação. Por isso dizemos que vivemos no Brasil um racismo ambíguo, o qual se apresenta muito diferente de outros contextos, onde esse fenômeno também acontece. Não há no Brasil como preponderar no debate da questão racial, o termo etnia, pois não devem ser considerados apenas aspectos culturais, mas os sociais, políticos e antropológicos no pensamento de Stuart Hall são práticas de significação. Baseado na concepção de Nilma Bentes, o racismo no Brasil está associado às características físicas das pessoas, a constituição das subjetividades num país, onde há legitimação da herança eurocêntrica tudo que está ligado ao negro é maléfico e inferior, por isso as manifestações culturais e as religiões de matriz africana são discriminadas e perseguidas.
A consolidação do dia da Consciência Negra como data de afirmação da luta do povo negro demonstra o quanto é necessário a resistência para que não haja a desconstituição de uma construção coletiva que busca a equidade racial e o respeito às diferenças e o reconhecimento de uma história e cultura afro-brasileira que contribuiu efetivamente para todos os aspectos da vida brasileira. A Consciência Negra dentre tantas atribuições serve para lembrar que existe uma história dos negros sem o Brasil, mas não existe Brasil sem a presença povo negro.

 

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