ANO: 26 | Nº: 6557

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
23/11/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

A receita do bolo

Na tentativa de explicar como se dá o processo criativo de textos, poemas e músicas, já se consagrou o entendimento de que ele envolve inspiração e transpiração. Entre os atores deste processo é predominante o juízo de que, em regra, ele envolve mais transpiração do que inspiração, ainda que, eventualmente, rompantes de inspiração sejam capazes de produzir uma obra completa de grande qualidade e em tempo recorde, deixando a nítida sensação de que o autor serviu apenas como uma antena receptora que praticamente psicografou algo que estava ali, pronto, literalmente numa nuvem, não virtual, mas igualmente invisível. Mais um mistério que nossa vã filosofia é incapaz de explicar racionalmente, ainda que nossa fé possa sugerir diferentes respostas.
Essa coisa de exigir mais transpiração do que inspiração não vale somente para o processo de criação intelectual. A vida ensina e a sabedoria popular confirma que só nos dicionários o sucesso vem antes do trabalho.
Isso vale para a nossa profissão, saúde, educação, esporte e até para as relações conjugais. Dia desses, refletindo sobre o assunto diante da notícia de uma série de desenlaces de longas uniões de casais conhecidos, acabei chegando nessa linha de raciocínio de que, também no casamento, a transpiração é muito mais determinante para o sucesso da relação do que a compatibilidade de gênios, o tesão, a atração entre os opostos, a admiração recíproca, o casual encontro de almas e tantos outros ingredientes daquilo que alguns costumam denominar de "Receita do Bolo" para um casamento bem sucedido.
Tem gente que acha que alguns tem sorte e, por isso, encontraram sua alma gêmea, a metade da sua laranja e foram felizes para sempre. Outros dizem que alguns tem dedo podre e só escolhem porcaria. Gente absolutamente sem sorte, vítimas de um triste e inescapável destino de solidão e abandono.
No entanto, não é raro ouvir dos casais de velhinhos que comemoram ou já ultrapassaram as Bodas de Ouro, que o segredo é a tolerância, a paciência, o respeito, doação etc. Enfim, relações longevas exigem, também, muito sacrifício de ambas as partes. Trocando em miúdos, dá muito trabalho fazer um casamento durar. Exige muita superação, pois, mesmo que a relação conjugal não seja conflituosa, tanto tempo de convívio certamente proporcionará o enfrentamento de várias dificuldades que, assim como podem fortalecer a relação, podem determinar a sua ruína.
Ninguém que começa uma vida conjugal pode antecipar se ela será exitosa e duradoura, mas isso dependerá muito mais do empenho de quem entra nessa, do que de fatores externos e alheios. De fato, não há receita do bolo, mas tudo indica que, como quase tudo na vida, se você não estiver disposto a transpirar, não há inspiração ou sorte que garanta o sucesso das suas relações.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...