ANO: 25 | Nº: 6398

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
26/11/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

A ilusão do ser perfeito

Por que sofremos tanto? Porque nossa sociedade baseada no consumo criou a ilusão da perfeição e nós acreditamos. Segundo este modelo, só pode ser feliz quem toca o ideal da perfeição. O ser humano perfeito de hoje é definido muito mais por aquilo que possui em termos de atributos físicos, hábitos de consumo e bens materiais do que por aquilo que de fato é. Dessa forma não é de se admirar que cresça desmedidamente o comércio dos psicotrópicos, as famosas pílulas da felicidade, os livros de autoajuda, as fórmulas mirabolantes para viver feliz e o fanatismo religioso e pelo corpo perfeito. Ocorre que a felicidade é um conceito subjetivo, um sentimento ou sensação que qualquer um experimenta muitas e muitas vezes na vida, apenas isso. Intercalado de outros tantos instantes de inquietações e dificuldades. Viver feliz o tempo todo não é possível. Felicidade não é um tesouro concreto que devemos comprar e, a partir daí, nunca mais voltaremos a nos sentir mal. A negação do desconforto, das agruras da vida e a perseguição da felicidade ideal tem produzido um batalhão de iludidos, infelizes e descontentes. Dessa forma a cada geração é mais difícil ainda o papel de educar, pois a frustração é temida e evitada.
E o padrão continua pairando sobre nossas cabeças. Parece que não basta estarmos nos sentindo bem interiormente. Algumas vezes esta manifestação de auto aceitação parece até incomodar os outros e ser interpretada como desleixo.
A exigência da felicidade impõe:
- Demonstrar conceitos atualizados de moda; Ser magro; Parecer sempre e cada vez mais jovem; Ser bonito (um dentinho torto, espinha ou gordurinha podem por tudo a perder); Não adoecer e se por falta de sorte acontecer não demonstrar (conheço gente que se envergonha por estar gripado); Ser alegre o tempo todo; Bem-sucedido profissionalmente; Casa bonita e carro do ano; Relacionamento afetivo estável, bem resolvido e com alguém igual ou "superiormente" magro, bonito, inteligente, apaixonado e bem sucedido; Filhos igualmente lindos, inteligentes e perfeitos.
Sendo assim cabe questionar. Quem cabe neste molde?
Neste molde estamos todos, ou pelo menos a grande maioria, fadados à infelicidade ou a viver procurando por ela nos lugares errados. Não seria mais fácil e sensato adotarmos conceitos mais humanos, menos perfeitos? Não é mais inteligente aceitar que, embora tenhamos preferência por um lado da moeda, o outro vai sempre existir?
Nunca seremos perfeitamente bem-acabados. Mas, sempre podemos nos sentir inteiros. Aceitar isso facilita e simplifica a existência. Afinal, sem roteiro pré-estabelecido cada um pode traçar sua trajetória sem ficar cego nem aos maus nem aos bons momentos.



"A felicidade é um conceito subjetivo"

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