ANO: 25 | Nº: 6398

Fernando Risch

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Escritor
29/11/2019 Fernando Risch (Opinião)

Não me deixaram com nada

Ergui-me da tumba do cotidiano e senti minha musculatura retesar. Olhos empossados de uma remela poeirenta, quase a rolar rochas pelas maças. Pus-me em pé, calando o galo digital. As pernas doloridas se moveram porque precisavam, a catar no caminho pertences úteis para o momento. Vesti calças porque calças me pareciam razoáveis.

Bebi do maná negro, como colostro aos mal despertos. Parei um pouco, sentado, a refletir. Só desgraça. Aquilo está errado. Aquilo outro também. Dissipei o pensamento no distante e foquei no agora. Ergui-me do banco e senti as pernas novamente fraquejarem. Isto está errado, pensei. Mas são as únicas pernas que tenho. Hão de servir.

Saí ao relento com o sol a agredir os olhos, com a brisa fria da madrugada a reavivar sensações saudosas de tempos em que um mais um era dois. O vento cheira à seiva fresca e o ar é úmido de orvalho. Um carro passa rápido, atrasado como eu, com pernas doloridas alternando acelerador, freio e embreagem, com a cabeça distante. Aquilo está errado, pensa ele.

Um transeunte cruza rápido, atrasado como eu. Manca com as pernas e com a cabeça. Aquilo me parece errado, pensa ele, mas não tenho certeza. Tudo está pior, mas assim é melhor, ele se tranquiliza. No passo guenzo, samba em um caminhar acelerado de um sofrimento envergonhado e calado.

Sigo meu passo, direção Oeste-Leste. As pernas se aquecem e a dor some e volta, volta e some. Acostumo-me a ela. O estômago ronca, mais em protesto do que de fome. A música aos meus ouvidos, usada pra despertar, fala de problemas, de tristeza. Não estou com saco pra isso hoje, é o que decido. Cadê aquela que fala sobre um risca faca, em que alguém se conheceu e que me deixava animado? Sumiu. Só tem essa de sofrimento ou uma em alemão que fala em Deutschland über allen. Finjo não saber o que significa, porque me lembra tudo que está errado.

Chego ao meu destino com suor às costas. Penso que deveria ter colocado bermudas. Ninguém se importa se eu uso bermudas ou não. Só quem se importa é meu corpo. Subo os três lances de escada com dificuldade, fingindo ler as manchetes de jornal que apalpei do chão. Isso está errado, penso. E isso. E aquilo. E aquele outro. A música alemã acaba e volta a tocar uma música triste e lamuriosa.

Será que poderiam me dar um momento de paz?, é a pergunta que faço para a parede. Sinto-me exausto, e olhe que mal deixei do status de deitado em berço esplêndido, logo pondo-me à luta, que os filhos teus não fogem, como podes bem ver. Isto está errado, parece errado. Pensei em gordura pingando ao carvão, saída da fibra animal. Olhei para o tabloide à mão. Li a capa, esmoreci. Isso está errado. Não me deixaram com nada.

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