ANO: 25 | Nº: 6398

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
30/11/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Jorge Jesus e suas circunstâncias

Campo de Ourique. Aqui estou, neste sítio, para rever meus miúdos. Um dos bairros mais simpáticos da capital portuguesa. Daqueles que parecem universais. Em que a gente se encontra com o passado, tranquilo, familiar. Da janela do apartamento, olho a pracinha e revejo uma cidade do interior. No centro, o quiosque. Parecido com o coreto. À noite, ele fica todo iluminado, como se fosse já o Natal. Perto, mesas de pedra onde se reúnem idosos para jogar cartas. Sucedem-se os parceiros sob às vistas dos curiosos. Ali, ficam até perto almoço. Vizinho a um laguinho com chafariz. Pela manhã, damas vestindo gabardine e com uma sombrinha levam alimentos para os patinhos. Senhores e senhoras passeiam com seus cachorros. Numa das faces, os táxis. Hoje, pela manhã, um alarido, um dos motoristas havia furado a fila e se adiantou frente a outro que dobrava esquina. Um bate-boca forte, igual a outros como em qualquer lugar. Parecia que iriam às vias de fato, ante a indiferença dos passantes. Como em poucas cidades nossas há um grande respeito pelos pedestres, os carros travam a quem atravessa. Lembra Brasília, Gramado. Nesse bairro,predominam cabelos brancos e bengalas.
Nestes dias, caiu uma chuva fina. A temperatura é do inverno que balbucia. Dá para suportar, mas úmida. Algumas mulheres sonham vitrinas das lojas. Restaurantes oferecem especialidades. Ontem, fui a um um sebo. Livros de boa qualidade. Alguns raros do Fernando Pessoa, inclusive de "contos anarquistas". Aliás, foi o primeiro passeio de homenagem pois perto fica o prédio onde morou o poeta em companhia de seus heterônimos. Como é normal nesta época em lugares históricos europeus, a administração aproveita para retocá-los e aguardar os turistas de verão. Andaimes impediram de entrar no edifício branco de janelas regulares de onde Álvaro de Campos imaginava seu eterno e macio Tejo; e Ricardo Reis cantava que "cada um cumpre o destino que lhe cumpre/ E deseja o destino que deseja/ Nem cumpre o que deseja/ Nem deseja o que cumpre."
Nestes dias de Lisboa, uma personagem ocupa o interesse em jornais, televisão, nas conversas de café, na rua. E não foi Camões, nem Vasco da Gama que continuam deitados nos Jerônimos. Ou Mia Couto. Eça ou o general Espíndola, que liderou a Revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974. Nem a pálida vitória da esquerda no regime parlamentar. Ou a invasão de mascarados no balneário do Sporting. (Balneário=vestiário). Nem de criativo inventor que resolva todos os problemas financeiros. Ou do robô que faça cirurgia milimétrica enquanto "ouve" concerto de Beethoven. Adivinhem que dou um doce (ovos moles).
Nenhum deles: foi o cabeludo Jorge Jesus, treinador do Flamengo.
Acreditem: a maioria das tevês passa o dia inteiro reproduzindo a festa dos campeões em Lima. O desfile na Candelária. A entrega do título de cidadão carioca. A vida dele como jogador e como técnico. Depoimentos de amigos e familiares. Entrevistas em todos os canais. Jogos do passado. Até os treinos. Cada hora uma partida inteira da classificação rubro-negra. O presidente da República declara que vai outorgar comenda ao treinador português. A vida com a mulher e filhos. A projeção do futuro.
Não vou cansá-los: aí na terra nem a paixão e morte de Tancredo; ou de Airton Senna; nem a Constituinte de 1988; ou o título mundial do Inter; a volta do Guarany ao Grupo dos Adultos; as comemorações das copas conquistadas, tiveram uma repercussão mais intensa que a glória do lusitano que também logrou, em seguida, ganhar o título nacional, além de conquistar o da América. E, com sadia inveja pela valorização que se dá a um nacional que brilha fora de seu país. Não é o político que se destaca; ou ator de grande feito humanitário; ou o ganhador do Nobel da Paz. Nem de quem chegou ao Pico do Himalaia, Ou que resolveu o trânsito em Bagé, nenhum deles. Foi o cara que com suas estratégias no futebol estrangula a abominável "posse de bola" e assassina a infértil "troca de passes" que não passa a linha divisória, as tais de "linhas" e "transição" e a linguagem acadêmica e professoral que hoje domina as crônicas esportivas. O que o JJ fez:? Velocidade nos passes, ânsia de gols, futebol frontal com um objetivo de ir às redes. O vetusto pedibólio que encantava nossa adolescência e mocidade. Escores alargados e não os magros 1x0. O drible malandro e produtivo. Os chutes de longa distância e não as firulas improdutivas. Gol de longe também vale. Não é necessário atravessar a área para chegar ao quadrilátero (já estou com a linguagem acaciana). Pois precisou um português "descobrir o Brasil" e ressuscitar o futebol que encantava o universo.
Fora isso, andei por um Centro de Compras, vulgo shopping. E, claro, numa filial da festejada Livraria Bertrand. Os livros que habitam a biblioteca do pai foram, em sua maioria editados pela Bertrand. Outrora, bem outrora, os grandes autores brasileiros publicavam pela Bertrand. Livros com belas encadernações. Hoje, os livros têm belas capas. As gráficas descobriram que envólucros bonitos atraem os leitores. O conteúdo se envaidece de uma colorida vestimenta. Não pesquisei muito. A variedade era impecável. Melhor passar rápido pelas gôndolas. Brasileiros, só reparei no novo do Chico Buarque, que ganhou o Prêmio Cervantes. E Martha Medeiros. Segurei os euros que queriam voar do bolso. As compras devem ficar para a extrema unção da viagem. Outra observação: os aplicativos, tipo Uber, se compõem marcas de grife, automóveis modernos. Cômodos. Em tudo, restaurantes, lojas, táxis, empregos diversos, ouve-se e se conversa com patrícios que migraram para cá. Parecem felizes. Na televisão, reparei que lançaram um "telemóvel" que se dobra. Bonito e caro. Vai fazer sucesso no Brasil: seis câmaras e capa à prova de bala. Por falar em televisão, há um canal da empresa hegemônica daí. Só passa novelas requentadas. Não tive tempo de permanecer com o controle para observar outras opções. Nas locais,abundam esportes, futebol e fofocas políticas. Encerro essas descoloridas linhas escritas "ao correr da pena", como dizia um conterrâneo.
Quando fizer um sol pleno, visto um bom fato, embarco num elétrico ou um comboio e vou ao Monumento dos Descobridores ver a ponte e Almada.Também saborear o pastel de Belém. Degustar o cafezinho d'A Brasileira, no Chiado, e sacar a habitual pose com o Fernando Pessoa de ferro, ali eternamente sentado. Aviso que aqui o vinho da casa é ótimo.
E, quem sabe, vá ao Corte Inglês comprar uma camisola do Benfica.

 

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