ANO: 25 | Nº: 6398

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
30/11/2019 Airton Gusmão (Opinião)

Não esquecer do principal

“Uma lenda conta que uma mulher pobre com uma criança no colo passou diante de uma caverna e escutou uma voz misteriosa que dizia: entre e pegue tudo o que você desejar, mas não esqueça do principal. Lembre-se disto, a porta se fechará para sempre. Aproveite a sua oportunidade e não se esqueça do principal. A mulher entrou na caverna e encontrou muitas riquezas. Fascinada pelas joias, pôs a criança no chão e começou a juntar tudo o que podia no avental. A voz sempre repetia: você tem só oito minutos, não esqueça do principal. Esgotados os oito minutos, a mulher, carregada de ouro, correu para fora da caverna e a porta se fechou. Lembrou-se, então, que a criança ficara e a porta se fechara para sempre” (Vivendo e aprendendo: histórias para o dia-a-dia; Mundo e Missão, p. 148).
Estamos iniciando mais um Ano Litúrgico, com o Tempo do Advento, que significa, vinda, chegada. Este tempo consta de quatro semanas. Essas quatro semanas são divididas em dois momentos: o primeiro corresponde às duas primeiras semanas do Advento, onde a Igreja nos convida a refletir sobre a segunda vinda de Cristo. O segundo momento acontece nas duas últimas semanas, em que as comunidades cristãs preparam-se para celebrar o Natal, o nascimento do Menino Jesus.
O evangelista Mateus (27,37-44), utilizando uma linguagem apocalíptica, está indicando a perspectiva da imprevisibilidade da vinda do Filho do homem, da volta de Jesus, exortando a comunidade a uma espera sincera e atenta: a uma vigilância ativa. A partir da narrativa de Noé e de comparações do cotidiano, das simples ocupações humanas, somos convidados a um discernimento sobre o como estamos conduzindo a nossa vida e o sentido que estamos dando a ela, com as oportunidades que vão surgindo e, em meio a todas as preocupações, afazeres, compromissos, não esquecendo o principal.
Todos nós precisamos de esperança para viver, tanto quanto precisamos do ar para respirar. Precisamos de esperança porque o nosso aqui e agora não basta; ele não apresenta tudo o que Deus quer de nós. Precisamos deixar que a esperança nos tome pela mão, nos fazendo sair dos nossos sentimentos de vazios, falta de sentido, de incapacidade, de fracassos, de não horizontes de vida e justiça para todos.
Quando ouvimos na visão do profeta Isaías que o Deus de Abraão, de Moisés e dos profetas, haverá de julgar as nações e arguir numerosos povos, e que estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices; bem como as palavras do Apóstolo Paulo, quando diz que a noite já vai adiantada, o dia vem chegando, com o convite para o despojar-se das ações das trevas e vestir-se das armas da luz; nesta esperança do Advento, lembramos da missão da Igreja e do compromisso dos cristãos: “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, nº 01).
Advento é tempo de espera, mas não de uma espera qualquer. Há que se preparar o coração, arrumar as estradas e organizar a vida. A espera sem a mudança do coração será vazia, pautada no egoísmo e desinteressada da vida naquilo que ela tem de mais sagrado, a atenção e o cuidado para com o outro, o nosso próximo. Daí a nossa vigilância em uma esperança ativa, pois sabemos que nos esforçamos para construir o Reino de Deus já aqui na terra, até que ele venha em plenitude. Tudo o que fizermos de amor concreto, solidário, de promoção e cuidado da vida, também da ecologia, da Casa Comum, de gestos de reconciliação, será em preparação ao novo céu e à nova terra. Assim, teremos condições de perceber que a esperança de um mundo transformado provoca nossa vigilância. Nossa tarefa neste advento é também levar a esperança que cultivamos em nós, para os demais irmãos e irmãs.
Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

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