ANO: 25 | Nº: 6398

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
30/11/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Os possuídos

Desde sempre, a civilização nos encaminha para um caminho diabólico, no sentido etimológico da palavra, ou seja, um caminho que nos aparta dos demais, que nos divide. Como diz aquela máxima da sabedoria popular: "Deus cria, o diabo separa e eles, por si, se juntam."
Greis, times, tribos, status, castas, postos, classes, grupos, crenças, origens, partidos, gangues, bandeiras, ideologias, tendências, preferências, nacionalidades etc, enfim, o que não falta são alternativas para aderirmos, não só para sermos aceitos pelos que nos cercam ou pelos que admiramos, mas, também, para satisfazer a necessidade daquilo que denominamos hoje de pertencimento.
Pela ordem natural das coisas, inicialmente nossas causas serão as mesmas dos nossos tutores e, a partir daí, começaremos a ostentar e nos orgulhar da nossa condição perante os demais, com maior ou menor ênfase, dependendo de nossa personalidade, convicção e disposição.
Na adolescência, quando passamos a compreender racionalmente o mundo que nos cerca, é natural que ocorra um rompimento com as causas escolhidas pelos nossos pais e aí, para afirmar nossa autonomia intelectual, é natural também se rebelar contra o estabelecido. Questionar as diretrizes e parâmetros, simplificar o que nos parece complexo e complicar o que nos parece vazio de sentido. Enfim, uma metamorfose natural e que raramente consegue alterar severamente aquilo que nossos pais estão, literalmente, carecas de saber e cansados de nos avisar. Batemos, nos debatemos, lutamos, mas, mais cedo ou mais tarde, percebemos que nossos pais sempre estiveram certos e que desperdiçamos nosso tempo e energia em batalhas inglórias e inócuas.
No meu tempo, porém, identificávamos entre nós aquilo que se denominava de "rebelde sem causa". O personagem "Jovem", do Chico Anysio, ironizava o perfil e tinha até uma música da banda "Ultraje a Rigor" que celebrizou a expressão "Rebelde sem causa". O perfil dos rotulados era predominante: jovens de classe média ou superior, também conhecidos como "filhinhos de papai" e que, levados pelo instinto contestador juvenil, queriam se rebelar, mas não tinham uma causa ou razão para isso. Esse vazio gerava um comportamento confuso visto que tanto podia ser interpretado como uma revolta contra tudo, quanto como uma revolta contra nada. A ausência de causas da época estava vinculada, talvez, ao fim da ditadura, à falta de hábito da população, à ausência de uma maior organização das forças políticas etc. A rebeldia sem causa era vista como uma fase que ia passar com o tempo e não era levada muito a sério.
Hoje não! As causas são tantas, tão inebriantes e levadas tão a sério que se apossam da alma de seus soldados, inspirando até uma paródia daquele lema militar: "morrer pela causa ou viver sem razões". O que se vê muito hoje é esse exacerbamento, esse arrebatamento à causa que vai muito além da mera convicção. É cego, é paixão, uma possessão diabólica, um desapego e um desrespeito total às outras causas e opiniões ou a seus defensores. Eu quero resolver o meu problema e o resto que se exploda. Com todo respeito, mas chegar nesse patamar é se deixar ser possuído pela causa, esquecer que antes das causas estão as pessoas, que antes dos seus interesses pessoais ou do pequeno grupo que integra, há valores maiores não só em importância como em abrangência. Assim, fica fácil explicar porque os rebeldes que não possuíam uma causa deixaram saudades. Eles não perdiam a noção da sua humanidade, da relevância da vida e da liberdade como valores máximos e inegociáveis e nem o respeito às decisões da maioria como princípio fundante e fundamental de qualquer democracia. Pessoas que não possuíam causas eram bem menos nocivas à sociedade do que as causas que possuem pessoas.

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