ANO: 26 | Nº: 6574

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
05/12/2019 João L. Roschildt (Opinião)

O tempo

Querido Joaquim. Uma das coisas mais intrigantes da vida é que cada pulso carrega um relógio. Digital ou analógico, sua função não se resume a um mero registro das horas do dia ou da noite. A simples alteração dos números ou o avançar dos ponteiros guarda algo infinitamente mais profundo. Na verdade, o sentido de um relógio não está em sua aparência, mas no significado dos instantes ininterruptos que compõem o ciclo existencial.

Ademais, posso lhe afirmar que estes duradouros aparelhos se moldam aos seus donos. Dependendo do ponto de vista, fazem com que o tempo se mova muito rápido ou demasiadamente lento. Mesmo que a maturidade ainda não lhe permita compreender o que está sendo dito, é importante frisar que o desenvolvimento de sua vida será o grande responsável por lançar luzes sobre isso. Apesar disso, consigo lhe dizer que para bebês, crianças e adolescentes, as horas, meses e anos, costumam ser como tartarugas cruzando uma rodovia; porém, para adultos e idosos, os dias passam em uma velocidade próxima a de uma serelepe lebre no campo; se forem pais, as etapas da vida fogem tão rápidas como um guepardo.

No caso, eu e sua mãe, fomos abatidos facilmente pelo esguio felino. Desde a sua concepção, passando pelo seu crescimento intrauterino e vivenciando a dádiva de ver seus primeiros choros, risos, olhares, quase-palavras e passos, fomos agredidos diariamente pelos dentes e garras deste lépido predador. Saiba que o encanto de sua vida, nosso amor e alegria, tornavam indolores as marcas deixadas por aquele ágil felídeo.

É claro que com a ausência de correntes que segurem os minutos, as marcas do tempo tornam-se dolorosas demais para não produzir lágrimas. Pequenos detalhes como o crescimento do seu cabelo, o desenvolvimento de sua mãozinha, a firmeza de seu pé, a perda de seu sorriso banguela e a vivacidade de seu olhar, criam memórias duras demais para serem excessivamente passageiras. Creio que a razão de meu fascínio por fotografias esteja na possibilidade de congelar uma parte do que já passou...

Meu filho, nossa convivência não é uma lição sobre o tempo, mas a possibilidade de compreender a lição do tempo. Saiba que o tempo não é passível de doma; tenha em mente que o choro sobre uma memória do passado não resgata o passado; nunca se esqueça que o tempo é uma fração de segundo que escapa pelos nossos dedos a todo instante; e aprenda que a areia fina da ampulheta é para mostrar as sutilezas imperceptíveis dos gostos e desgostos da vida.

O tempo. Aquilo que representa o tédio mortal para os imortais, significa a angústia imortal para os mortais. Não aceitar seu poder de império representa uma estupidez abissal. Crer na possibilidade de seu controle é a insanidade travestida de utopia. Lutar contra seus desígnios é a permanência na ignorância.

Honre o tempo, Joaquim. Desfrute-o como a sua mãe e não seja um saudosista como seu pai. Aproveite-o mais e analise-o menos. Se é bem verdade que o tempo é senhor da razão, nunca julgue que tem razão sobre o tempo.

Valorize o tempo que tem; não reclame do que não tem. Perceba que um ano de vida não é nada para a eternidade, mas imortaliza a efemeridade. A felicidade não está na infinitude do tempo, mas na finitude de um suspiro. E a única coisa que vence o tempo é o amor. Papai e mamãe te amam. Feliz aniversário.

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