ANO: 26 | Nº: 6494

Fernando Risch

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Escritor
06/12/2019 Fernando Risch (Opinião)

Ando pensando

A estátua de Rodin está daquele jeito por uma razão. É assim que se pensa. Na verdade, naquela posição. E é assim que estou fazendo agora, escrevendo este texto. Uma folha de rascunho e uma caneta. Às vezes, ponho a folha no chão, no meio das pernas, mas a caneta fica distante, difícil de escrever; há momentos que apoio na perna, sendo esta a melhor maneira de executar a ação; e tem vezes que apoio a folha com a mão esquerda à parede e escrevo com a direita, assim como as democracias latino-americanas.

Ando pensando bastante. Já pensaram quão raro são os canhotos? Eles devem ser o que, cinco, 10 por cento da população? Desculpe, estou divagando. É que ando pensando muito, assim como a estátua de Rodin, principalmente naquela posição, esta a qual me encontro agora.

Impressionante essa posição, consigo executar duas artes ao mesmo tempo, a escrita e a pintura, cada qual com sua unidade. Sabia que Picasso conseguia pintar com as duas mãos ao mesmo tempo? Ou será que era o Da Vinci? Não sei. Mas, enfim, uma mão com cada pincel, um pincel em cada quadro, ao mesmo tempo, esquerda e direita, pintando a mesma figura.

Falando em Picasso, tem aquela história do Guernica, em que oficiais nazistas o interpelam para saber se o quadro havia sido ele quem pintou, no que ele olha para os servos com fardamento cor de estrume e fala: "Não, foram vocês que pintaram". Ai, ai, bons tempos. Onde eu estava? Ah, sim. Já me levantei. Falando em estrume, está um cheiro estranho no ar, mas não quero acusar ninguém, apesar de estar sozinho.

Um fluxo de água giratória, sentido Leste-Oeste ou Oeste-Leste, não sei, levou tudo. Sei que no Japão é ao contrário, ou pelo menos é o que me falaram. Enfim, o fluxo levou uma das minhas artes. Pintura barroca de altíssimo nível, campos tostados de sol, na cidade bucólica de Scheiße, na Baviera, fronteira com a Áustria. Barroco pode ser abstrato? Acho que não, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Mas o meu barroco era. Isso me fez pensar sobre a arte.

Ando pensando muito, às vezes como a estátua de Rodin, às vezes como a estátua de Frédéric Auguste Bartholdi, se bem que esta segunda anda em baixa, em ornamentos de boutiques bregas, símbolo da republiqueta de malucos. Estou divagando de novo, favor me perdoar. Dói pensar. Sai fumaça. Mas ando pensando mesmo assim.

Sai cada bobagem, como este texto, por exemplo. Escrito à mão enquanto pensava, sentado como a estátua de Rodin, sem meu celular para me distrair. Semana que vem tem mais, desde que até lá, quem não suporta ou não consegue, não nos proíba de pensar.

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