ANO: 26 | Nº: 6527

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
07/12/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Sobre mercados e nádegas

Campo de Ourique, conforme o dado turístico, é bairro vibrante, bastante povoado, preferência de quem almeja habitar na capital lusa. Cosmopolita e moderno, a maioria de seus moradores pertencem à classe média. Eu acrescentaria: aposentados. Como se diz aqui, é "uma aldeia no coração da cidade". No texto anterior, disse que a gente está em casa, não somente pela língua e origem comuns, mas porque o lugar se parece com cena do interior.
Uma prova é o Mercado do Campo de Ourique, construído em 1934 sob o modelo do Mercado de San Miguel, de Madri. Situa-se na rua Coelho da Rocha, mais abaixo do prédio em que Fernando Pessoa morou os últimos 15 anos de sua vida, ora em reformas para os visitantes de verão. Nele, recordo o Mercado Público de Bagé, demolido na década de 50 para dar lugar aos prédios que defrontam a extinta Praça Voluntários da Pátria. O mesmo quadrilátero, com seus frontões nas esquinas; as lojas e espaços externos. As torres. Sem dúvida quem o projetou teve em consideração esse e outros desenhos portugueses e o belo interior constituído por dezenas de lojas com as mais variadas especialidades, carnes, verduras, bancas de frutas; padarias e docerias, casas de vinhos, choperias; frutos do mar, comidas gourmet, hoje, moda em outros estabelecimentos similares. No centro, ricamente decorado, espalham-se as mesas para café e refeições fornecidas nos setores laterais. Um ambiente de convivência e camaradagem. Não é o único, pois há mais oito mercados em Lisboa. Outro mais famoso é o Mercado da Ribeira.
Chovia quando, usando o aplicativo, chegou-se ao Largo do Chiado. O abrigo inicial foi proteger-se no Centro de Vendas da Fnac, um edifício que fecha a Rua Garret, composto também de lojas diversas, especialmente de modas e celulares, mas também pequenos bares, eis que os espaços não são grandes, onde pessoas se acotovelam para lancgesd ou um cafezinho. Quando amaina a intempérie, caminha-se pela longa avenida que desce ao largo aonde há uma estátua de Antônio Ribeiro, cuja alcunha dá nome ao distrito. Dizem que antes havia, ali, também, um chafariz abastecido por aqueduto. O motivo daquela visita era óbvio. Sentar-se numa das mesas de rua do Café a Brasileira, aonde, constante e perene, vive a imagem em ferro de Fernando Pessoa. O episódio é obrigatório para quem, como o escriba, tem na maior conta o poeta dos heterônimos. Não se pode visitá-lo em casa pela justificativa já exposta. Ao menos se fique em sua breve companhia em foto.
Como já se esgotara a hora de almoço – aqui, a maioria dos restaurantes fecha às três da tarde- tratou-se de investigar algo perto. Tudo lotado.Seguindo conselhos melhor ir ao Mercado da Ribeira. A que se vai pela longa e inclinada rua do Alecrim, aonde circulam, além dos pedestres, também carros e elétricos. A via desemboca no Cais Sódre. Numa das faces está o Mercado da Ribeira. Ali se encontra, como diz a propaganda (time-out) "o melhor bife, o melhor hamburguer, o melhor sushi, o melhor peixe" as mais saborosas frutas e mais belas flores. Isso sem referir-se ao melhor "éclair", as insubstituíveis bombas francesas recheadas de chocolate e outras gostosuras: e o "melhor pastel de nata" fabricado na famosa Mantegaria. Uma quadra abriga uma grande praça de alimentação, por onde se distribuem mesas coletivas, absurdamente cheias, as comidas vindas de 26 restaurantes, oito bares e locais de comércio variado, inclusive uma sala de espetáculos. Há um barulho ensurdecedor de vozes, uma babel de sotaques. Ante a dificuldade, opta-se por um almoço em restaurante externo, que, fiquem com inveja, saboreei o melhor risoto de camarão, superando velha lembrança de outro, hoje inexistente, na Farme de Amoedo, Rio. Em muitos destes locais se pode pedir "um prego", ou seja, alimento tradicional da cozinha portuguesa. É servido no prato ou no pão e consta de um bife de carne de vaca, ovos, queijo, fiambre ou presunto e batatas fritas. É conhecido também como "bitoque". Dá ou não vontade de "reconstruir" um Mercado Público em Bagé,como o de Pelotas, Rio Grande, Porto Alegre?
E já conto de outro local : o LXFactory, antiga fábrica em abandono que está transformada em dezenas de lojas, restaurantes, casas de vinho, pizzarias, modas, souvenires, artesanato, tudo distribuído em espaços adaptados no interior do velho edifício e nos pátios de circulação ocupados por tendas que negociam também quadros, fotografias, perfumes, fazendas, bebidas e mais. Um passeio também necessário nesta Lisboa encantadora. Sem falar numa enorme livraria, chamada de "Ler Devagar", contendo uma cafeteria e andares insculpidos nas paredes aonde se situam estantes com farta e variada literatura. Quem conheceu o Gabinete Português de Leitura no centro do Rio de Janeiro sabe do que escrevo. Quem sabe se acha na cidade algo abandonado para servir a imaginação aos talentosos arquitetos bajeenses em algo similar?
Muitos indagam sobre televisão. Acrescento que assisti algumas partidas do campeonato nacional no canal PFC, que repete o Sportv. Há canais da Record, inclusive direcionados para a Europa, África e outros países. O bispo se expande.
E, agora, uma curiosidade. Já se sabe da existência de uma "mídia carnal", ou seja, cadernos de jornais onde candidatos oferecem os mais diversos préstimos sexuais. Todavia, o que achei aqui supera os demais, pois não se submete apenas em anunciar os predicados do ofertante, mas anexa pequenas fotos das pessoas em poses promocionais: é uma profusão de bun..., perdão, de nádegas e peitos, com as qualidades eróticas de cada um ou uma. Brancas, negras; brasileiras, portuguesas, africanas, espanholas; jovens bem dotados, rapazes dúbios, veteranas etc. São três páginas com mais de 500 ofertas (?). Com muita reserva dou um exemplo: "Maria. 22 anos. Real estudante. PtXXXL. Bej na boca. Peluda. T...378." "Soraia. Caboverdiana. 25a, meiga, seios XL, oral imperdível. Massagem. T....062". "Cinquentona brasileira safadinha, ama beijos gostosos sem tabu.T....469." E por aí vai.
Já sei: alguns parceiros do mate dominical, sérios e sisudos, exigirão de mim a prova cabal e contundente de tão "desumano comércio". E, como estou voltando, escondo um exemplar ao controle da alfândega e o levo para submeter-se à inquisição do "tribunal da Praça da Matriz". A igreja fica perto para os atos de constrição.

 

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