ANO: 25 | Nº: 6460

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
12/12/2019 João L. Roschildt (Opinião)

Banana conceitual

O desprezo por Deus trouxe a perda da beleza. Sem a ideia de sagrado, o profano torna-se santificado. Desprovidos da perfeição, da harmonia e do senso de proporção, os seres humanos não passam de errantes em busca daquilo que não podem ter com a consciência de que nunca terão.

Cozinhada na panela de pressão do existencialismo tacanho e fritada na frigideira do relativismo, a sociedade contemporânea encontra-se órfã do transcendente e da verdade. Dispersos e perdidos em um mundo sem sentido, os indivíduos sabem que a tábua de salvação para fugir do isolamento está no compartilhamento da estupidez e da ignorância. Assim, a apatia diante do absurdo é um triste sintoma da perda do enlevo e de um significado profundo nas relações humanas.

Recentemente, a grande mídia deu certo destaque a uma “obra de arte” que foi arrematada por um colecionador francês pela bagatela de US$ 120 mil. De autoria de Maurizio Cattelan, a “obra” consistia em uma singela banana presa na parede de uma galeria por uma fita adesiva do tipo silver tape. Intitulada “Comediante”, esta “obra” foi exibida na Galerie Perrotin, em Miami, atraindo um bom número de curiosos e apreciadores. Munidos de boas câmeras fotográficas e smartphones de última geração, não faltaram cliques para registrar este momento esplendoroso da realidade contemporânea, sempre acompanhados de belos sorrisos de satisfação.

Ocorre que durante a referida exposição, o “artista” David Datuna optou por realizar uma performance “artística” para chamar ainda mais a atenção para o caso. Conforme vídeo divulgado em seu Instagram, e replicado pelos veículos de comunicação de massa, Datuna caminhou em direção a banana, retirou-a da parede, descascou-a e tratou de comê-la. Intitulada de “Artista com fome”, Datuna classificou sua ação como uma “performance artística” e aproveitou para elogiar efusivamente o trabalho de Cattelan: “Para mim ele é um dos principais artistas do mundo”. Não obstante essa cadeia de insanidades normalizadas, Datuna declarou que essa foi “a primeira vez na história que um artista come o conceito de um outro artista. [...] Fisicamente era uma banana, mas a banana é só uma ferramenta. Então eu comi o conceito da arte”, declarando que estava com fome quando a comeu, o que justifica o título de sua performance. Lucien Terras, um dos diretores da Galerie Perrotin, afirmou que a obra não foi destruída, afinal, “a banana é uma ideia”. Quinze minutos após o ocorrido, outra bela banana foi presa à parede.

Tão efêmera e substituível quanto a banana é a ideia de beleza em nossos tempos. Sem qualquer pudor, qualquer desajustado é chamado de “artista” e qualquer coisa serve como algo que testa os limites da arte. Se a ideia de arte remete ao que é belo e passível de ser apreciado com um sentido transcendente, uma banana em uma silver tape não consegue estabelecer uma relação minimamente razoável que justifique sua apreciação como arte.

Os “artistas” contemporâneos, com o intuito de questionar os padrões que formaram nossa sociedade, dominaram os espaços culturais e estabeleceram a ausência de padrão como o novo padrão. Como diria o sábio Chesterton, “a decadência da sociedade é louvada pelos artistas, assim como a decadência de um defunto é louvada pelos vermes”. Em nossa época faltam “artistas” e sobram vermes...

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