ANO: 25 | Nº: 6459

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
14/12/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Obsolescência programada

As lâmpadas incandescentes foram extintas não só por conta da proibição de sua comercialização, mas, também, pela curta vida útil que se encarregou de acelerar este processo iniciado no início desta década. Todavia, deixaram saudades, seja pelo custo baixíssimo em comparação com suas substitutas imediatas, seja pelo charme ou beleza de sua luz quente, perene e amarelada. Tanto que novas tecnologias até hoje tentam preservar suas virtudes estéticas, mas sem um baixo custo de produção. Pelo contrário, lâmpadas modernas com filamento de carbono (as antigas eram de filamento de tungstênio) que imitam o bulbo e o brilho amarelado das antigas lâmpadas incandescentes, são caríssimas e estão tão na moda que dispensam lustres, abajures e luminárias que escondam a lâmpada, ou seja, basta um soquete para que o destaque decorativo fique para a própria lâmpada.
Porém, para a maioria dos mortais, não dispostos a gastar fortunas só para resgatar o visual retrô das antigas lâmpadas incandescentes, restou a solução mais prática e menos cara das lâmpadas econômicas: as fluorescentes compactas.
Entrou muita porcaria no mercado, demoramos um pouco para aprender e confiar, constatamos que, apesar das promessas, elas não duravam tanto como as tubulares, mas duravam mais que as incandescentes e, para completar, nem conseguimos comprovar o seu prometido baixo consumo visto que, paralelo a essa substituição das lâmpadas, o custo da energia elétrica aumentou tanto que nem deu para sentir na prática, ou seja, a conta da CEEE subiu tanto que eventual economia na diminuição do consumo das lâmpadas econômicas nem chegou a ser sentida no bolso pela maioria dos mortais. Um paradoxo que ocorre também no consumo de gasolina, ou seja, não adianta os carros ficarem mais econômicos, se a gasolina fica cada vez mais cara, pois, assim, continuamos gastando o mesmo para andar o mesmo, ainda que o carro seja mais econômico. Uma perversa lógica do mercado de consumo que também se aplica às usinas de energia elétrica que "sem-vergonhamente" justificam o aumento no custo do produto na diminuição do consumo.
Pois bem, dia desses fui substituir uma lâmpada econômica por outra e... as lâmpadas econômicas também estão sendo extintas e substituídas pelas lâmpadas de LED que, com promessas similares àquelas que justificaram a substituição das incandescentes pelas fluorescentes, chegam no mercado com uma iluminação quase direcional em função do bulbo só deixar passar a luz em metade (ou um pouco mais) de sua área esférica, diminuindo o espaço físico de emissão de luz.
Falar em durabilidade maior ainda é precipitado, mas isso pouco interessa, pois o mercado assim decidiu e os consumidores que se adaptem, mesmo que tenham que pagar mais por um produto pior. É assim que as coisas funcionam e, o pior, às vezes até com o amparo de normas jurídicas que sob justificativas ambientais acabam impondo a extinção de determinado produto.
Agora, uma tradicional montadora de veículos anunciou o lançamento de um carro 100% elétrico com 203 CV de potência e autonomia de até 416 quilômetros. Impressionado com estes números, fui conferir os dados no material publicitário e constatei que a autonomia só ocorre dentro de condições muito favoráveis: velocidade baixa, trecho plano e com o automóvel descarregado, ou seja, provavelmente, se quisermos ir a Porto Alegre, dentro dos limites de velocidade da estrada, com o carro carregado e com o ar-condicionado ligado, esse carro zero e potente não terá autonomia para chegar na capital. E, o pior, é que para recarregar a bateria no meio do caminho se gastará um tempo que atrasará ainda mais a nossa chegada no destino. Simplificando e indo direto ao assunto: um péssimo negócio, mas como transitar consumindo combustíveis fósseis provavelmente se transformará em crime ambiental, daqui a pouco seremos obrigados a substituir nossas carroças à combustão por essas porcarias modernas. Tá bem! Fazer o quê?

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