ANO: 26 | Nº: 6586

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
17/12/2019 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Não chora!


Tanto quanto dizer "fica calma", não chora é uma daquelas frases que tem o poder de me irritar muito. Dizer a alguém, que está com as lágrimas expostas nos olhos prestes a derramar ou com a voz embargada pela emoção, que não chore é um pedido ou ordem impossível de se seguir. Além disso, essa solicitação repressora tem o poder de desconfortar, faz parecer que é errado ou feio, inadequado demonstrar as emoções através do choro.
Por que o choro incomoda tanto? Talvez quem assista as lágrimas alheias fique perturbado, pois também não sabe o que fazer com as suas, ou as reprima também acreditando que demonstrações de fragilidade levam à fraqueza e, por conseguinte, à exposição ao ridículo.
"Coisa de mulher, coisa de bebê". Assim foi percebido por muito tempo até se descobrir o potencial regulador da saúde mental de um indivíduo, o livre acesso e direito a expressão de suas emoções, seja em lágrimas, gestos, palavras, arte. Expressar pode ser libertador. Chorar não resolve os problemas, mas tem um poder de descarga tão grande que pode gerar um alívio da tensão que muitas vezes impede que se veja determinada situação com mais clareza.
Demonstrar que está tudo bem e auxiliar as crianças a se acalmarem sem desqualificar o choro contribui para um crescimento da autoestima e aceitação de que na vida há momentos que não controlamos tudo, não somos máquinas. Além disso, ajuda a esclarecer alguns aspectos importantes como:
- Quem demonstra o que sente não é mais fraco ou simplório por causa disso.
- Ser profundamente tocado por um filme, música ou demais manifestações artísticas não é sinal de fraqueza ou motivo de vergonha é tão somente evidência de humanidade e empatia, prova irretocável de que aquele conteúdo atingiu a alma do espectador.
- Lágrimas não têm relação com gênero e sim com sentimento espontâneo e sua manifestação.
- Chorar não é a única forma de expressar, mas é uma forma bastante universal de aliviar a tensão e liberar um volume grande de conteúdo emocional nem sempre relacionado à tristeza, há ocasiões que expressam grande felicidade, comoção por alegria e contentamento.
Chorar faz parte da vida, assim como respirar, e algumas pessoas têm mais acesso que outras. Os bebês choram livremente pois é a primeira forma de manifestação concreta no mundo. Aos poucos vamos aprendendo e dominando outras maneiras de evidenciar nossas inquietações, sentimentos, descontentamentos e pedidos de ajuda, mas o pranto continua ali, guardado como uma força reserva que pode ser utilizada em momentos de grande comoção.
Portanto, nunca ordene ou sugira a alguém para não chorar, não peça a uma criança para engolir o choro a menos que deseje que ela cresça acreditando que sentir e expressar o que sente seja errado, feio e que deva esconder-se para ser quem é.



"Lágrimas não têm relação com gênero,
mas com sentimento espontâneo"

 

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