ANO: 26 | Nº: 6574

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
19/12/2019 João L. Roschildt (Opinião)

O jovem

Tão avassalador quanto a destruição da alta cultura é a letargia diante da queda. Uma sociedade prostrada frente ao contínuo extermínio dos valores civilizatórios, está fadada ao obscurantismo moral. Sem os princípios que permitem um adequado processo de florescimento humano, os indivíduos encontram-se desamparados no deserto existencial de suas vidas.

Se existe uma guerra justa a ser travada e que pode resgatar a boa cultura legada pela tradição, essa é aquela que envolve a busca pelo significado real das coisas e o consequente extermínio do relativismo. A sua vitória significa o resgate à ideia de verdade e a preservação do senso de comunidade.

Infelizmente, por falta de maturidade, por ainda estarem em formação ou por imbecilidade mesmo, os jovens são os mais aptos a aderir a modismos intelectuais e estarem envolvidos nesse drama. Questionadores, revolucionários e inseguros por natureza, a juventude é ávida por aquilo que promove enfrentamentos, rompe paradigmas e aponta as “fragilidades” de seus antagonistas. Nesse contexto, a ideia de outorga de poder para seres ainda em desenvolvimento, os contínuos e imperceptíveis processos de idiotização nos ambientes educacionais, a quimera de direitos sem deveres, os estímulos visuais e musicais em torno dos instintos mais primitivos e a fantasia de que o futuro “pertence” aqueles que ainda não viveram tempo suficiente em suas limitadas vidas, fez do jovem contemporâneo uma espécie de besta divina. Julgam-se iluminados em suas trevas, esparramando ignorância por onde quer que passem, deixando um rastro de destruição que tenta rebaixar tudo o que é superior.

Ao maduro vaidoso, é um deleite para o intelecto ouvir um recém desfraldado moral pronunciar-se sobre a ideia de beleza, sobre a qualidade da música contemporânea, sobre perspectivas de “justiça social” ou sobre a compreensão a respeito dos direitos que lhe devem ser garantidos. Ressalvadas as exceções, os jovens oscilarão entre um “ensurdecedor” silêncio até as mais tresloucadas afirmações que tentarão justificar seu sentimentalismo barato. Entre tudo ser uma mera “questão de gosto” (o que individualiza a verdade, transformando-a em um “puxadinho” da vontade particular, aniquilando-a) e uma estrita obediência irracional a imagem de que o mundo é um eterno devedor para mimados credores incapazes de ouvir “não”, espremesse a racionalidade.

Se havia um fio de esperança quando em 1980 Nelson Rodrigues disse que seu conselho aos jovens era de envelhecer rapidamente, creio que não haja algo mais catastrófico do que ver a juventude avançar em sua idade. Mesmo que o famoso dramaturgo não estivesse falando do desenrolar dos anos de uma vida, mas sim em amadurecimento no sentido figurado, pois havia algo a ser preservado em seu tempo, hoje não resta mais nada. Sem um legado, o envelhecimento não passa de um ato mecânico destituído de qualquer noção de aprimoramento.

Quase 40 anos depois qual poderia ser o conselho ao jovem? Em uma era politicamente correta, respostas cobertas de pelúcias e papel bolha diriam que essa é a nova geração e que não há volta: cabe aos mais velhos compreendê-los (e, subliminarmente, satisfazer todas as suas idiotas vontades). Sem petulância, mas com audácia, acho que Nelson Rodrigues os mandaria para “aquele lugar” e diria para renascerem.

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