ANO: 26 | Nº: 6541

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
20/12/2019 Fernando Risch (Opinião)

Ai, Jesus


Eu não sou religioso nem espiritualizado. Sou um chato calcado em razões mundanas, um aporreado cético que gosta mais da ciência do que qualquer fé. Mas eu não ignoro as religiões, eu as respeito. Respeito tanto que gosto de estudá-las. O que muitos chamam de sagrado, eu chamo de mitologia, mas não é porque eu as chamo assim que não têm valor. Têm muito, principalmente de princípios e filosofias, boas ou ruins.

Nesta época do ano, muito se fala em refletir. Refletimos sobre nós mesmos, sobre os outros e como nos portamos com nossos iguais. Ajudamos mais às pessoas que necessitam próximo do Natal, faz bem pra alma (ou pro ego), tudo baseado no conjunto que engloba a data: o nascimento de Cristo.

Jesus Cristo, pra mim, era um grande filósofo. Um homem que espalhou uma mensagem de paz e amor, de fraternidade e companheirismo, de caráter e de sacrifício. Motivados por seu legado, próximo a data simbólica do seu nascimento, nos mostramos mais sentimentais e compreensivos, mais caridosos e bondosos.

Jesus não faz parte do meu rol de ídolos. Às vezes me esqueço dele, até enxergar sua figura e lembrar. Eu prefiro assim. Tento refletir a todo instante, a todo o momento, em todos os dias da minha vida. Tento pensar e agir de forma pacífica, amorosa e caridosa, mesmo que não consiga. E eu não consigo, mas tento. Faz parte do que eu sou (ou tento ser) e não preciso que nada nem ninguém nem data qualquer me lembre disso.

Mas vamos refletir segundo Cristo, pois a data é dele. Segundo Mateus, Jesus disse o seguinte: "Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão!"

É um bom texto filosófico e o mais profético de todos de Jesus. Interprete-se como quiser. Eu tenho a minha. Quando Jesus fala de "falsos profetas", ele não se refere apena àqueles que usam sua palavra com terceiras intenções, como pastores ou padres de caráter duvidoso, ele fala de todo cristão que se usa de sua palavra e não a pratica. Quando ele fala nos "bons frutos", ele está falando de forma figurada da sua palavra e suas atitudes: o amor, a paz, a fraternidade. Jesus fala de pessoas que se usam das palavras de bem para fazer o mal.

Eu imagino se Jesus voltasse a este mundo, como ele julgaria seus fiéis. Comigo, certamente ele sentaria numa mesa de bar e dividiria uma cerveja, mesmo sabendo que não tenho nenhuma fidelidade à sua figura, nenhum senso de espiritualismo e nenhum pingo de cristianismo. Ele entenderia, acho eu.

Eu penso também no dito cristão que prega da violência, do ódio e do individualismo. Como será que Jesus reagiria a essas pessoas? Perdoaria, porque, afinal, ele sempre perdoa? Talvez. Ou talvez não. Eu diria que não. A prática do bem é tudo, e não é no discurso solto, perdido ao vento. A pratica do bem a Jesus não pertence, é de todos, e uma escolha de cada um.

O que fazemos e o que deixamos é o que verdadeiramente importa, seja por bem ou por mal. Se o legado prático de um cristão não for do amor, da paz, do bem, da coletividade e da fraternidade, pra quê então rezar?

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...