ANO: 26 | Nº: 6590

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
21/12/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

Da manjedoura à coroa vermelha

Ao visitar Porto Seguro, minha maior curiosidade turística era conhecer o local onde desembarcaram os nossos colonizadores e que determinou o início da civilização tupiniquim e o início do fim do império indígena sobre a "terra brasilis".
Sem dúvida um importante marco histórico do Brasil e cujo símbolo de maior destaque é a cruz que indica o lugar da primeira missa realizada no território, no primeiro domingo após o descobrimento.
Em 22 de abril de 2000, durante as celebrações dos 500 anos do descobrimento, foi inaugurada uma enorme cruz de aço de quinze metros, bem no centro de uma espécie de praça pública bem ampla, vazia e cercada por construções térreas bem modestas.
Apesar do valor histórico, simbólico e da sua exagerada verticalidade (que deixou a cruz desproporcional), o monumento, em si, não chega a impressionar visto que faltou harmonia estética entre ela e o seu entorno, o que amplifica ainda mais a escassa qualidade artística da obra. Enfim, como se diz no popular, a cruz "não ornou" e isso me deixou levemente decepcionado.
Todo mundo sabe que há uma relação direta entre a decepção experimentada e a expectativa previamente alimentada. Como minha expectativa era grande, minha decepção não poderia ter sido muito menor. Além disso, por ser um lugar aparentemente de pouca visitação – e a amplitude do espaço aumenta ainda mais essa sensação –, contribuiu para a minha decepção o fato de que fica evidente que não se trata de um lugar de devoção cristã. Então, culturalmente deslocado, turisticamente pouco atraente e com pouco ou nenhum apelo espiritual, saí dali com a nítida sensação de que Cristo estava sozinho, abandonado e, como crente, fiquei chateado.
Não é segredo pra ninguém que Jesus, desde que nasceu até sua morte na cruz, não foi muito bem acolhido por muitos. Pelas descrições simbólicas dos presépios, nasceu cercado mais por animais do que por humanos, após uma sucessão de negativas de hospedagem, vivenciadas por Maria e José. Depois, durante Seu julgamento, martírio e morte, mesmo discípulos fiéis como Pedro, O abandonaram e não evitaram Sua crucificação, sem falar na decisão popular de salvar Barrabás e sacramentar o Seu destino.
Todavia, o homem que dividiu a história da humanidade, ganhou notoriedade incontestável após sua morte e ressurreição. Um homem que não se deixou abalar por ter sido rejeitado, contestado e abandonado. Seguiu pregando aquilo em que acreditava e que a posteridade eterna confirmaria palavra por palavra.
Não importa que desde o Seu Natal na manjedoura até a celebração de Sua memória na praia da Coroa Vermelha em Porto Seguro Ele tenha sido pouco prestigiado e reconhecido, pois o que importa é que Ele sempre esteve com a razão, sempre soube e ensinou que a salvação está no amor, a única maneira de viver e conviver em paz, porque o certo é o certo, mesmo que ninguém esteja fazendo; assim como o errado é errado, mesmo que todos estejam fazendo.
E esse é o maior consolo para que a gente, assim como Ele, não esmoreça nem deixe de perseverar, mesmo que nos sintamos sozinhos, abandonados, desestimulados a prosseguir, desacreditando de nossas escolhas e intenções. O Natal proporciona essa reflexão, de renovação da fé na ética cristã, no acerto e sabedoria do evangelho que mesmo após tantos séculos, ninguém conseguiu contestar com sucesso. Feliz Natal!

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