ANO: 26 | Nº: 6557

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
21/12/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Miguel Gularte e o mocotó do sábado

Nas memórias dos cinquenta anos da Faculdade de Direito de Bagé, há personagem cuja lembrança não esmaece, a de Miguel Greco Gularte. Integra o grupo fundador. Os alunos pioneiros organizavam--se, espontaneamente, em núcleos que se ligam pela convivência diária, pelos estudos e pela camaradagem. O de Miguel era constituído pelo Juca Abero, Erly Inghes, Edgar Pereira Pinto, José Antônio Fuchs. Em torno deles circulavam os demais atraídos pela jocosidade do elenco. E talento de cada um. Quando não estavam em aula ou pelos corredores eram achados no bar do Nito, nas proximidades do hoje "bairro universitário" onde iam outrossim professores atraídos pela luz de suas joviais presenças. Curioso que nestes e em outros eventos sociais Miguel apenas apreciava refrigerantes. Atropelam agora as recordações. E muitas, pois foi ele figura múltipla, com existência muito participativa. Desde já se adiantam, pois latentes na personalidade de Miguel, além dos predicados referidos o afeto pelos familiares e amigos; a solidariedade que não dispensava a quem necessitasse; a disponibilidade em atos onde escondia modéstia, a gentileza constante; a elegância de conduta; e o respeitoso garbo como tratava a todos. Indistintamente. Era muito popular.
O que começa quando adolescente ingressa nos juvenis do Guarany Futebol Clube, clube em que permanece cerca de onze anos. Rápido e eficiente ponteiro direito. Atuava com uma boina branca. Teve como companheiros, entre muitos, os goleiros Olímpio e Lugano; Bataclã, Caboclo; Bexiga e Athayde, amigos que conservou, que estavam com ele de modo frequente, em momentos bons e ruins. Lembro a linha formada por Miguel, Carlos Calvete, Nadir, Velho e Zezo. Nadir e seus irmãos tinham nele especial estima. No escritório de advocacia com o Mathias, Ney Fontoura, irmão de Nadir, foi secretário por muitos anos. Miguel jogou na grande vitória do Guarany sobre o Internacional em Porto Alegre, em julho de 1953 quando o alvirrubro vence o colorado por 3x2 (Saladuro e dois de Velho). Lembro um Baguá, na Pedra Moura; um gol na baliza da entrada, passe do clássico Rubilar. Em nosso convívio a turma brincava dizendo que ele havia tomado cinco dribles do Nilton Santos em um metro de grama, quando o Botafogo estivera em Bagé. Mas o futebol esteve ligado também à vida amorosa do Miguel. Por causa da Miriam. Uma das mais belas jovens da sociedade bajeense. Família Olivela, criada por sua tia dona Lourdes, irmã de Paquita Valls Pereira, a grande provedora da Capelinha do Frei Mário. Pois Miguel namorava a Miriam, época em que não era comum uma moça do Clube Comercial afeiçoar-se a jogador de futebol. No estádio do Guarany, tempos do pavilhão de madeira, havia um setor de camarotes para os melhores aquinhoados. Nos dias de jogo a atração era ver ali Miriam assistindo a peleja. Também despertava curiosidade a presença, ás vezes, de jovem filha de um militar que flertava com o Mitinho, outro atleta alvirrubro. O casamento da Miriam e o Miguel, na monumental residência do casal Xirú e Paquita Pereira foi o acontecimento da época. A casa, na esquina da Osório, mirava a praça, quase meio quarteirão, hoje um magazine. O que impressionara era a iluminação esplendente, os ruídos e música, baita festa. Na residência trabalhava uma linda doméstica, de nome Antônia, que logo seria cativada pelo carteiro Alceu Colares, casal que me hospedou, anos depois em Brasília para que frequentasse determinado curso, tudo a convite do ex-governador, então o deputado mais notável do Congresso.
Miriam e Miguel foram morar numa confortável casa, ao lado da Casa Carioca, que se tornaria sede de multidão de amigos, pois no pátio possuía setor advincular, conexo, e escritório do Miguel, aonde exercia sua atividade de contador, com seus arquivos e armários. Um local aprazível onde muitos eram assíduos. Meu primo Chico Beltrand, que seria com Miguel, um de meus padrinhos no Lions, era presença contumaz. Calvete, Bexiga e Athayde alegravam com suas histórias inesquecíveis. Também seria o quartel-general do grupo de alunos da Faculdade de Direito, pois Miguel sempre tinha o livro adequado, a sebenta que organizara de determinada matéria. Era metódico. Atendia quem se preocupava com determinada questão previdenciária. Depois, quando bancário e dirigente, ali encaminhava a reivindicação. Solucionava os problemas de muitos. Não se negava ao auxílio, ao conselho.
Àquela peça se reproduziria quando se torna advogado na casa da Artur Lopes. A linhagem já enriquecida por Miguelzinho, José Heitor, Ana Tereza e Maria de Lourdes, filhos abonadas pela boa formação e hoje com porvir exitoso. O local imitava o anterior com os livros, arquivos, documentos. Seguramente, ali, um acervo fotográfico incomparável, testemunha de muitos episódios bajeenses que com outras peças constitui base e fonte histórica de instantes da cidade. Como lhe era próprio, quando assumi a magistratura e fui honrado pela coletividade, Miguel logo me presenteia com um álbum de cópias das homenagens que recebi e de quem esteve nelas. Um gesto que lhe era natural, eis que costumava realçar a conquista de conhecido. Não descurava a lhaneza da mensagem, do cartão, da página de elogio. Não se furtava à eficiente participação em entidades locais, o Clube Comercial, o Cantegril, as Cooperativas, órgãos de beneficência e hospitais. No Lions teve luminosa passagem, atuante nas campanhas e cargos que ocupa. Serviu a todos, em genuflexão ao lema da entidade. Dedicava-se aos parentes quem muito apoiava. Ante a iniquidade teve a serenidade dos dignos e o comportamento estoico dos justos, mantendo a inteireza de seu caráter.
Narro costume que lhe era peculiar. Vinculado aos Greco e Veleda, ao Meleleu e ao "tio" e fidalgo Loio Gularte, dono do Hotel São Francisco, Miguel era sobrinho da mãe do Arley Bicudo e do João Carlos Cabeça, senhora que no inverno preparava memorável mocotó. O prato era invencível mesmo em disputa com o festejado similar do Dedé e de outros muito bem votados. Era certo. Em algum sábado, antes do almoço, o Miguel surgia trazendo a panela com a invencível iguaria. Cumpria a gentileza com sua camioneta ajudado de eventual colaborador. Com sorriso e o habitual gracejo. Pois ninguém ficava triste em sua companhia. Penso que essa foi sua missão. Fazer alguém feliz.

 

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