ANO: 26 | Nº: 6576

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
28/12/2019 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A imitação de Cristo

Uma curiosidade pueril de quem possui muitos livros. Descobrir qual o volume mais antigo de todos. Seguramente seria religioso ou usado no ginásio. Outros assuntos tinham resposta suficiente na biblioteca do pai que ainda agora impressiona pelo conteúdo e beleza das edições. Imaginei ser um Novo Testamento, de capa dura, que ganhara do Padre Osório quando vencera certamente catequético, maratona de respostas com base no catecismo. Apostei na Imitação de Cristo, presente do padre Érico Schmengler, em maio de 1950, ao "esforçado secretario da JEC, para frequente leitura". A sigla era da Juventude Estudantil Católica, existente no estabelecimento, então presidida por Tancredo Blanco. O Elias Abip Muza era o tesoureiro. Tínhamos um líder, Luiz Alberto Gómez de Souza, irmão do Paulo José. Durante o sistema militar foi exilado para o Chile, depois França e outros países. Pertencia à esquerda cristã. Numa visita recente ao colégio, indaguei do salesiano acerca do livro de Atas. Queria relembrar trabalho que apresentei sobre a Papisa Joana, possível lenda. Infelizmente, desconhecia-se o paradeiro deste e outros documentos. Pois ali se forjaram muitos dirigentes que dignificam o pretérito. Importa dizer que a sedimentação da fé e a solidez dos dogmas ali foram incrustados, seja pela missa dominical obrigatória ou pela caderneta assinada. Seja pelas rezas antes de ingressar na aula. Seja pelas novenas e comemorações. O afrouxamento vindo da modernidade foi decisivo para o enfraquecimento dessas práticas junto com apatia de algumas famílias, o descuido, a indiferença. O Estado é laico. Os frutos desse abandono se refletem em fatos como o desrespeito aos símbolos e personagens de determinadas religiões. E há quem aprecie tais gracejos como prova da liberdade de expressão.
Depois da Bíblia a "Imitação de Cristo" é uma das obras mais traduzidas. É uma literatura devocional atribuída a Thomás de Kempis (também Thomás Hermeken, ou Thomás de Kempen, cidade natal do autor na Renânia alemã.). Foi escrito há mais de 500 anos, sendo considerado um dos maiores tratados da moral cristã. Kempis(1380), faleceu na Holanda (1471). Monge, mora setenta anos no Convento Agostiniano de Agniehenberg, nos Países Baixos. A autoria lhe fé eis que maioria dos manuscritos achados têm sua assinatura. Cuida-se, como dito, em auxiliar de orações e práticas religiosas, lido por Inácio de Loiola em seu retiro em Manresa, Espanha e que, influenciado pelo livro, concebeu os famosos "Exercícios Espirituais" dos jesuítas, obra com tal compunção espiritual que muitos o leem como manual esotérico. Kempis é considerado o expoente maior do movimento " irmãos de vida em comum" (séculos XV e XVI), criado por Gerald Groote que deu ênfase à meditação e a vida interior; pouca importância aos ritos externos; e que não seguiam a visão escolástica, mas o aspecto concreto da vida em comum. Esse grupo surge como reação à degradação dos costumes, abusos e escândalos que antecederam a Reforma Luterana. Enfatiza a conversa interior; a meditação sobre a vida; a frequência aos sacramentos; e apologia da paixão de Cristo. Para o teólogo Márcio Ruben, a "Imitação" é o livro imprescindível na história da espiritualidade cristã", daí sua enorme importância editorial. Compõe-se de de quatro partes: as duas primeiras constituem introdução à vida espiritual ("Deixa-te a ti e achar-me-ás a mim"); a terceira são diálogos entre Jesus Cristo e a Alma; e a última foca exclusivamente na Eucaristia.
Vaidade, diz Kempis, é buscar riquezas perecedouras e esperar nelas; é desejar honras, seguir o apetite da carne, desejar longas idas e não prever o que depois virá; e amor o que tão depressa passa e não busca com solicitude a felicidade que sempre dure; e recomenda: "Não se farte a vista de ver, nem o ouvido de ouvir".
Todavia, agora confesso, o mais antigo não era nem o Novo Testamento, nem a Imitação, mas "Rezo a Missa", um missal de domingo que a maioria dos alunos adquiria para acompanhar a cerimônia, então em latim. Continha orações, evangelhos, ritos. Tem minha assinatura em 5 de novembro de 1949. E informa que o usei até 1952. Não pensem que perdi a fé. É que a missa passou a ser em língua nacional.

Fontes: "Imitação de Cristo", Thomás de Kempis. São Paulo: Escola dos Profissionais Salesianos, 1943. "Rezo a missa", Padre Hugo H. Hoever, tradução do Catholic Book Publishing Co, Nova York, 1948. "História da Igreja", texto de Márcio Ruben, em historiadaigreja-com.webnote.com/c/catecismo, consulta em 25.12.2019.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...