ANO: 26 | Nº: 6540

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
28/12/2019 Marcelo Teixeira (Opinião)

O que não distingue...


A chateação das discussões políticas teima em não acabar. Toda vez que a gente pensa que terminou e chega a celebrar com uma desconfiada parcimônia a possibilidade de ter acabado a radicalização e a contestação sistemática e automática, surge um fato qualquer, uma declaração qualquer, uma "fake news" qualquer que põe tudo a perder. Reacende-se a polêmica e aquilo que parecia ter apagado, volta a queimar, invariavelmente provocando afastamentos e antipatias, inclusive entre parentes.
Os mais maduros até já aprenderam a administrar estes conflitos evitando contato real ou virtual com pessoas que não desistem de militar por suas causas e convicções, mesmo que isso custe amizades ou determine afastamentos.
Confesso que estou melhorando, mas ainda não estou totalmente curado dessa tendência comportamental de reagir à divergências que julgo carentes de razão ou fundamento, seja do ponto de vista ético, seja do ponto de vista ideológico. Todavia, disparado, minha maior bronca ainda é com a incoerência. Fico rápida e exageradamente indignado toda vez que constato alguma incoerência no discurso alheio e não tenho nada contra críticas inteligentes e criativas, mesmo que atinja pessoas ou causas que admiro ou defendo.
No debate interminável entre os extremos políticos que são genérica e simplificadamente identificados como "esquerda" e "direita", uma das discussões que está aparentemente inconclusa é aquela que tenta enquadrar o nazismo como algo de direita ou de esquerda. Guardadas as devidas proporções, é algo que se repete sobre o cristianismo que também gera dúvidas sobre ser uma doutrina de esquerda ou de direita. Particularmente penso que são coisas que não se misturam, que direita é direita, esquerda é esquerda, nazismo é nazismo e cristianismo é cristianismo. Porém, na ânsia de macular a imagem da oposição, a esquerda insiste em ligar a direita ao nazismo e afastar do cristianismo; e a direita retruca dizendo que a esquerda é doutrinariamente ateísta (não cristã, portanto) e que o nazismo é de esquerda, sobretudo pela escancarada intervenção estatal na economia.
Sem entrar nesta infindável discussão, o que fica claro é que nesta tentativa de destruir a imagem do adversário (em vez de edificar a própria imagem), um paralelo isento será capaz de ver mais coisas que aproximam do que distinguem estas alas opostas tão raivosas.
A experiência dos catorze anos da gestão da esquerda em nível federal (e outras experiências em nível estadual e municipal) demonstraram que ela é tão corrupta quanto a direita. Nessa mesma esteira se revelou, também, que a esquerda pode ser tão demagoga quanto a direita e, assim, não titubear em agir sem responsabilidade fiscal, só para agradar seus eleitores. Surpreendentemente a esquerda se revelou tão elitista quanto a direita e, de lambuja, tem a mesma mania de cultuar a personalidade, criando ídolos de carne e osso. A esquerda tende ao autoritarismo tanto quanto a direita e, assim, são tão centralizadores quanto, dificultando sobremaneira a implantação de uma verdadeira e necessária autonomia dos entes da federação. Enfim, não pára por aqui, e a única diferença é que a direita ficou por mais tempo no poder, o que fundamenta o abominável argumento de alguns esquerdistas de que eles só fizeram aquilo que a direita sempre fez, como se um erro justificasse outro. É o argumento ciumento: ora se a direita fez tudo isso por tanto tempo, por que a esquerda não pode fazer isso agora?
Não creio, mas tomara que o ano que inaugura na próxima quarta-feira nos poupe de tanta incoerência, hipocrisia e radicalismo. Feliz ano novo e que tenhamos um show de prosperidade em 2020!

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