ANO: 26 | Nº: 6590
30/12/2019 Cidade

Argentina alimenta lenda do pioneiro que uniu Buenos Aires a Bagé em voo de balão

Foto: Reprodução JM

Imagem atribuída à ascensão do El Huracán, durante partida entre River Plate e Belgrano
Imagem atribuída à ascensão do El Huracán, durante partida entre River Plate e Belgrano

Por Sidimar Rostan

As referências à Jorge Newbery, presentes em ruas, tangos, escolas, estações de trem, aeroportos e até em clubes de futebol da Argentina, não encontram o mesmo espaço em Bagé. Na cidade da Campanha gaúcha, destino final de sua grande aventura pelos ceus da América do Sul, concluída dezembro de 1909, após percorrer a distância de 550 quilômetros em 13 horas, a recordação do feito histórico parece ter sido carregada pelo vento.
A viagem com o balão de ar quente El Huracán (o Furacão, em português), que uniu Buenos Aires a Bagé, renderia a Newbery o recorde sul-americano de duração e distância em voos do gênero. O fato mereceu a atenção do jornal A Federação, de Porto Alegre, que, em edição publicada em janeiro de 1910, revela detalhes da travessia. Sem qualquer ilustração, o pequeno registro relata aspectos curiosos da viagem, mencionando apuros vividos no Uruguai.
Newbery decolou do bairro de Belgrano, na capital portenha, no dia 27, aterrizando cerca de 13 horas depois, após atravessar o Rio da Prata, a uma altura de 250 metros. No percurso até Bagé, El Huracán alcançou a altura máxima de três quilômetros, submetendo o operador a uma temperatura de três graus abaixo de zero. Na passagem pelo Uruguai, conforme destaca A Federação, o balão se transformou em alvo de tiros, mas não chegou a ser alvejado.


Figura popular
Filho do dentista norte-americano Rodolfo Newbery (veterano da Guerra da Secessão, onde defendeu a posição abolicionista do presidente Abraham Lincoln) e de dona Dolores Malagarie, Jorge Newbery tinha 11 irmãos.
Biografia publicada pelo Instituto Argentino de História Aeronáutica, sugere que Newbery herdou o espírito de aventura do pai. Rodolfo colonizou o povoado de General Villegas, na província de Buenos Aires, e morreu na Terra do Fogo, buscando novos horizontes.
Newbery nasceu em 1875 e, aos oito anos, foi enviado a Nova Iorque, para conhecer seus avós paternos. Nos Estados Unidos, foi aluno de Thomas Edison, na Universidade Drexel, na Filadélfia. Ele retornaria para a capital argentina em 1895, com o título de Engenheiro Eletricista.
A profissão abriu portas para cargos importantes na Armada Nacional, rendendo a função de diretor de iluminação de Buenos Aires. A paixão pelos ceus foi despertada na França, em 1907, quando participava de testes com um tipo de lâmpada. Foi em Paris que conheceu Santos Dumont.
O escritor argentino Danilo Albero Vergara define Newbery (um dos fundadores da Força Aérea Argentina) como ‘o pioneiro da navegação em balões aerostáticos e aviões no país’. “Newbery foi, em sua época, tão famoso quanto (Carlos) Gardel ou (Juan Domingo) Perón”, destaca.
Vergara é autor de ‘Jorge Newbery, el señor del coraje’, novela inspirada na vida do ilustre argentino. “Ele morreu (aos 38 anos) na minha província (Mendonza), em 1914 (quatro anos após ter iniciado sua carreira na aviação), quando tentava fazer a primeira travessia de avião da Cordilheira dos Andes. Sua vida sempre me interessou”, explica.


Relação com o futebol
Newbery era multiesportista, acumulando experiência com boxe, remo, natação, equitação, tiro, esgrima, rúgbi, pólo e automobilismo. Sua relação com o futebol, porém, seria eternizada por sete clubes. O primeiro Jorge Newbery foi fundado em 1917, em Laprida. O segundo, no mesmo ano, em Aguilares, cuja torcida recebe a alcunha de 'Los Aviadores'. O tricolor de Venado Tuerto também foi criado em 1917. O último foi fundado em 1944, em Villa Mercedes, por militares.
Uma das equipes, criada na Patagônia, em 1924, tem um histórico especial. Seu principal rival é o Huracán de Comodoro Rivadavia, batizado em homenagem ao Club Atlético Huracán, de Buenos Aires, um dos grandes clubes argentinos, que teve o escudo inspirado no balão conduzido por Newbery até Bagé. El Huracán, aliás, também tem uma relação particular com o futebol. Em 1909, o balão ascendeu durante uma partida entre River Plate e Belgrano Athletic Club.
O balão El Huracán desapareceu sem deixar rastro, restando apenas a imagem gravada na camiseta do clube de futebol e uma fotografia atribuída à ascensão, em Belgrano. Nenhum registro foi feito em Bagé. E Vergara tem uma explicação para o fato, observando que 'o uso de câmeras externas naquela época não era muito frequente, devido à sensibilidade do filme e ao tamanho (da máquina)'. “Especialmente no caso de uma pessoa que cai do céu, quando ninguém espera”, avalia.

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