ANO: 25 | Nº: 6488

Luiz Fernando Mainardi

luiz.mainardi@al.rs.gov.br
Deputado Estadual
03/01/2020 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

Esperança e política

Os finais de ano são períodos propícios para balanços. Olhamos os 12 meses que passaram e nos perguntamos como foi a nossa vida, a vida dos que nos cercam, a vida do país e a vida do Mundo, ou pelo Mundo. Ao mesmo tempo, esse olhar retrospectivo projeta as nossas expectativas para o ano que se inicia. E há nessa projeção do ano que se inicia todas as nossas esperanças para o nosso futuro como pessoas e como coletividade.
Uma mirada panorâmica sobre a situação política e social do Brasil e do Mundo – que é o que me compete, como deputado, examinar – remeterá para a inevitável conclusão de que 2019 foi um ano ruim. No Brasil e no Mundo, tivemos um ano de crises nos mais diversos aspectos, crises migratórias, com elevação do número de refugiados, aumento do nacionalismo e da xenofobia; retrocessos democráticos em vários países; crise econômica e o avanço impressionante da degradação ambiental. A ascensão de governos autoritários em diversos países parece ser a consequência do descrédito da democracia e, em última análise, da própria política.
Talvez resida aí – na descrença na política como ação humana – uma chave explicativa de boa parte dos dilemas contemporâneos. A política é uma atividade nobre. Segundo o historiador de ideias Isaiah Berlin, questões genuinamente políticas são aquelas que dizem com os fins da sociedade, todas as demais são questões técnicas, passíveis de serem resolvidas por especialistas ou máquinas. Mas a política, como espaço de discussão sobre o mundo que queremos e como forma de relacionamento para solução dos conflitos, não pode e não deve ser substituída. Tudo o mais é obscurantismo, retrocesso e fundamentalismo.
O grande escritor moçambicano Mia Couto, na introdução do seu livro de ensaios chamado E se Obama fosse africano?, conta uma história tocante ocorrida no seu país. Consta que após a independência de Moçambique o novo governo criou, entre tantos outros, um programa de controle e registro dos mais importantes rios do país. Formulários foram distribuídos em todas as estações hidrométricas, para acompanhar o regime de chuvas, a irrigação e as secas.
Ocorre, no entanto, que sobreveio uma guerra civil. Por mais de uma década de sofrimento o país foi convulsionado por um conflito que, entre outras mazelas, decompôs totalmente a prestação dos serviços públicos e a ação governamental.
Passada a guerra, as autoridades relançaram o projeto de controle hidrológico, acreditando que todo o trabalho deveria recomeçar do zero. Qual não foi a surpresa, no entanto, quando a equipe governamental chegou numa longínqua estação no interior da Zambézia: um velho guarda de estação havia permanecido ativo naquele anônimo trabalho, anotara todos os registros. Quando terminaram os formulários, passou a anotar os registros a carvão nas paredes caiadas da estação; quando preencheu todas as paredes externas, passou a registrar os controles nas paredes internas, de modo que nenhum dado, ao longo de mais de uma década, fora perdido.
Mia Couto nos conta essa história para dizer que o episódio passou a ser um dos alimentos do seu sentimento de esperança. Um indivíduo isolado no mais recôndido interior de um país devastado pela guerra não perde o senso do dever, não perde a noção de que a sua ação possui uma importância no mundo e de que, por mais improvável que possa parecer, ainda há razões para manter viva a esperança no futuro.
Se me perguntarem o que espero de 2020 digo apenas, com o perdão do trocadilho, que a nossa missão é manter a esperança. Manter a esperança num mundo e num país melhores, a esperança de que a democracia e a política sejam os instrumentos para que possamos definir os fins da nossa sociedade, e que sejam os instrumentos para a solução pacífica dos nossos conflitos.
Tal como um velho guarda de estação, a mensagem é manter viva a esperança num futuro mais edificante.

Deputado estadual, líder da bancada do PT na ALRS

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