ANO: 26 | Nº: 6525

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
09/01/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Esse é para casar

Em um dia qualquer, dentro de um supermercado qualquer, repleto de seres humanos quaisquer, estava próximo a duas moças. Uma delas, ao ver um rapaz cruzar seu caminho, disse: “Esse é pra casar...”, o que gerou risos comedidos e comentários inaudíveis. Após um considerável afastamento do rapaz, uma delas continuou sua análise dizendo o quanto aquele alvo masculino reunia qualidades físicas e “morais” dignas de um casamento. Por mais que o juízo estético contemporâneo seja algo sofrível, foi muito mais a “bela” aparência do moço que reluziu aos olhos de ambas, do que suas virtudes.

Este modelo de comentário, por mais antigo que pareça, ainda é muito proferido por homens em relação a mulheres. Por mais que a sociedade contemporânea veja o casamento como algo fora de moda e que as estatísticas das dissoluções conjugais (e familiares) estejam aumentando, a observação impulsiva de que alguém é para casar, significa uma tentativa instintiva de preservar qualidades que são adequadas para a constituição de uma família. Afinal, não é demérito algum tentar resguardar um dos propósitos da natureza humana. Todavia, por trás dessa avaliação, surge a ideia de que algumas pessoas não são para casar. Em uma época carente de racionalidade, esse é mais um combustível para vitimizados e coletivos insurgentes.

Uma das razões da sabedoria popular ser tão popular é a sua sabedoria. Talvez não exista nada mais contundente do que as lições de senso comum sobre coisas comuns. Falar sobre o óbvio, proteger as razoáveis experiências do tempo, preservar as boas tradições e buscar a verdade é a grande marca do bom senso: desprezá-lo equivale a negligência da realidade. No fundo, o “cheiro” de suor da vida prática é muito antagônico às utopias produzidas em gabinetes refrigerados e que são enaltecidas por ativistas sociais mentalmente inativos.

Em 2017, o ator Romulo Arantes Neto foi duramente criticado por declarar em uma entrevista que a cantora Anitta “não é o perfil que escolheria pra gente casar, ter filhos, namorar [...]”. Rapidamente, na internet, sua fala foi condenada, classificando-o como preconceituoso e machista. Em 2018, o “cantor” (na contemporaneidade qualquer “coisa” é “coisa”) colombiano J Balvin, durante uma brincadeira de um youtuber, disse que a cantora “Rihanna não é mulher para casar, é para curtir muito”. Resultado? Sofreu com os mesmos impropérios direcionados ao ator brasileiro. Já em 2019, o ator Chris Evans, após o término de seu namoro, declarou ao Men’s Journal que gosta das tarefas domésticas e das rotinas de uma casa, sendo taxativo: “Eu quero uma esposa, quero filhos”. De forma educada e implícita, o intérprete do Capitão América nos filmes da Marvel, insinuou que mulheres que não desejam uma vida familiar, serão afastadas pelo seu “escudo” sentimental.

O ponto é que em todas estas situações, escondem-se os valores que os indivíduos apreciam para a construção de seus laços mais íntimos. Equivocando-se ou não sobre os estereótipos individuais, o perspicaz senso comum que diz, que alguém é ou não é talhado para o casamento, só quer afirmar que determinadas características tradicionais ainda são preciosas para formar uma família. Anitta e Rihanna? Quem se importa? O fato é que talvez as moças do supermercado tenham imaginado um Chris Evans tupiniquim.

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