ANO: 25 | Nº: 6436

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
11/01/2020 Marcelo Teixeira (Opinião)

A paz reina!

Quem nunca curtiu uma música em língua estrangeira sem ter a menor noção do significado da letra? Nestes casos, é evidente – ou, pelo menos, provável – que nossa escolha está relacionada à melodia da música que, por alguma razão subjetiva, é agradável aos nossos ouvidos.
Muitas vezes a letra é até ridícula, carente de conteúdo, rima ou poesia, mas a melodia sendo boa, cai no gosto popular e faz muito sucesso.
Lembro, por exemplo, da música “Coming Around Again” que fez enorme sucesso na voz de Carly Simon no final dos anos 80. Uma balada romântica que certamente embalou muitos casais apaixonados quando tocava nas rádios, boates e discotecas durante os verdes anos da minha geração. Ainda naquela época descobri a tradução da letra e tive uma grande decepção, pois a letra apenas relatava o cotidiano de uma mãe esgotada com os afazeres domésticos, decepcionada com a rotina de uma relação desgastada, mas que ainda acreditava no amor e na retomada da relação.
Anos antes, durante um baile do conjunto San Remo no salão da escola São Pedro (ISPEA), tomei coragem de tirar a minha esposa para dançar. Por “coincidência” a primeira música que dançamos juntos era a clássica “Strangers in the night” do não menos clássico Franck Sinatra. Uma bela música sem dúvida, mas, mais uma vez, tanto ela quanto eu não tínhamos a menor noção do significado daquela letra.
Mais de duas décadas – e uma filha – depois, instigado a fazer uma declaração de amor para ela, mas sem muita inspiração, lembrei dessa primeira música que dançamos e resolvi ir atrás da tradução da letra na internet. Ao ler a tradução, me caiu os “butiá do bolso”! Sem tirar quase nada, aquela letra descrevia com incrível precisão aquilo que aconteceu conosco nos mais de vinte anos que se seguiram àquele baile do San Remo. Para nós, então, não foi apenas a primeira música que dançamos, mas praticamente uma profecia.
Pois bem, nesse meio, meu pai resolveu me dar algumas instruções sobre seu velório e sepultamento. Entre as instruções, que eu fizesse tocar a música “New York, New York” durante seu sepultamento. Achei o pedido meio estranho, mas como ele, de fato, gostava muito da música, era compreensível. Quando ele faleceu no ano retrasado, confesso que fiquei meio envergonhado de atender esse pedido, mas minha filha, sabedora do desejo dele e portando um desses aparatos de som modernos, portáteis, compactos e potentes, colocou a música para tocar durante o sepultamento dele.
Eu não sabia o significado da letra da música e creio que meu pai também não soubesse, mas quando cheguei em casa, após o sepultamento dele, procurei a tradução da letra e só as primeiras frases traduzidas já foram suficientes para, mais uma vez, me causar espanto: “Start spreading the news / I’m leaving today” (“Comece a espalhar a notícia / Estou partindo hoje”). Coincidência? De novo? Para mim, decididamente, não!
O resto da música até faz algum sentido com a personalidade do meu pai, mas não cabe explicar aqui. Porém, até em respeito as descrenças dele – tanto que nos proibiu de mandar rezar missas póstumas –, penso hoje que a alma dele não está no céu nem no inferno, que ele não virou uma estrelinha nem está a vagar no vale das sombras. Como, também diz a letra da música, penso que aqueles “sapatos vagabundos” estavam “querendo passear” no “coração de Nova Iorque”. Para mim, é lá onde ele está e onde, enfim, a paz reina!

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