ANO: 26 | Nº: 6576

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
11/01/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Guarany, 1969: o campeonato (quase) esquecido (2)

A escolha do articulista para a presidência fora costurada antes da assembleia dos sócios. E um dos raros cargos assumidos por ele em tempos do regime militar. Era vereador de partido afastado do poder central, respondia processo na justiça castrense. Esteve até afastado do exercício do magistério estadual. Ou seja, naquela época pessoa na situação do signatário ficava longe de convites para gestões em entidades comunitárias. Assim, todavia, não pensava o patrono. Certa tarde, caminhando ambos na Avenida Sete, perto do Clube Comercial, seu Toneca lhe fez o pedido, quase um apelo. Que aceitou, como desafio. Eleito, tratou de organizar a diretoria. O primeiro sondado foi Bolívar Ruiz Severo, o sisudo fazendeiro, grande e histórico alvirrubro. Seria o vice para o futebol. Descendo a Tupy Silveira chego à Loja Eletro-máquinas, a semente de onde mais tarde brotaria o império de Aracely dos Santos Menezes, que também acedeu. Seria o homem da administração. Mais adiante, visito Edgar Pereira Pinto, que concorda em ser o vice de finanças. Como o futuro demonstraria não poderia achar melhores e mais leais companheiros para a empreitada. Vão se somando outros, como Alceu Malafaia Barreto e Joaquim Pedro Gafrée, logo Irio de Los Santos; Renato Nóbrega Pereira, secretário e especialista em contratos e registro dos atletas; Nilceu Conde e Valentim Ferrer; Rubilar, massagista, Bataclã e depois Luis, como roupeiros; Carlinhos, morador do estádio; e logo o eficiente Rubem Barbosa de Godoy, que além de cobrador zelava pelo gramado tanto quanto suas lambretas; d. Nedy, na sede na Galeria Kalil; e outros abnegados. Danilo Nigris continuava como treinador, José Higino de Paula, preparador físico; Sérgio Cabral, que deixara de jogar, era o diretor de futebol. Aracely, desde logo, programa locação de cartazes de publicidade no estádio para se obter recursos. Também se lança a tradicional campanha para sócios. Em andamento a promoção que construiria o Parque esportivo, havia sorteios mensais de geladeiras e outros prêmios. Época razoável para a pecuária, os melhor aquinhoados não negam auxílio aos irmãos Magalhães Rossel.
A equipe de futebol começa com especial estratégia: jogos treinos com times da várzea como o São Judas; visita Candiota, Lavras e Dom Pedrito. Vai amadurecendo e ganhando experiência coletiva. Como forma de aumentar as rendas e atrair público programa preliminares com um Baguá feminino; Edgar Muza organiza lutas de box ou luta livre, em palco improvisado no centro do gramado; até campereadas são tentadas.Em combinação com o Grêmio Esportivo Bagé realizam-se *quadrangulares* com times uruguaios. Um joga sábado e outro no domingo. Foi instante de histórico movimento desportivo que mobiliza as duas torcidas. O primeiro é com o La Luz, de Montevidéu. O Guarany vence por 6 x 1, gols de Carlinhos, Saulzinho, Ilton (2), Toninho e Zé Roberto. E começa a se formar um time básico: Nilson (Plínio), Selmar (Danilinho), Danúbio (Osmar), Walter Pátron (Geraldo) e Zé Roberto; Carlinhos e Amarante; Toninho, Ilton, Eder e Saulzinho (Abílio estava lesionado). No mesmo maio, aqui vem o Rentista, também de Montevidéu, com quem o Guarany empata (0 x 0). E o Huracan Buceo. Outro quadrangular é com o Rio-grandense, de Santa Maria. No jogo na Pedra Moura o alvirrubro é derrotado por 2 x 1. O gol solitário é de Abílio.
Mas antes disso, ainda no primeiro semestre, o Guarany excursiona na Argentina, sob a responsabilidade do empresário platino Scalzione, que, na verdade, organiza jogo a jogo, sem uma previsão e no final não quita o que havia prometido. Mas a excursão afirma o nome do Guarany no exterior, é cheia de incidências que merecem livro a parte; e apesar do prejuízo os atletas lembram com saudades o evento. Inclusive pelos episódios jocosos ocorridos. Em San Juan, aonde se realizava a Festa da Uva, os atletas dão um show de músicas, animando e cantando na festa (Cidade Maravilhosa, Tá chegando a hora, etc.). Mas há momento triste, pois falece a mãe de Carlinhos e Osmar Fróes, que retornam para as exéquias, junto com o Renato e alguns jogadores contundidos. O Guarany disputa 14 jogos na Argentina, com 8 vitórias, 5 derrotas e 1 empate. A estreia, em 20 de fevereiro de 1969 é em La Plata, contra o Gymnasia Esgrima: derrota por 2 x 1. Gol de Abílio; 23/2, Chascamus, 3X0, gols de Saulzinho, Walter e Carlinhos; 23/2, Três Arroyos, empate de 1x 1 com o Club Atlético Huracan. Gol de Abílio; 01/3, Necochea, vitória por 2x1, gols de Abílio; 05/3, San Juan, empate com o Sportivo Desamparados (0x0); 08/3, San Juan, 6x 3 no mesmo Sportivo, gols de Migonga (2), Machadinho, Walter, Abílio e Saulzinho; 11/3, Mendonza, perde para o Godoy Cruz por 3x0; 13/3, Mendonza, derrota por 4x0 perante o Club Independiente Rivadávia; 16/3, La Consulta, vitória por 3x2, gols de Walter, Saulzinho e Ico; Mendonza, vitória por 2x1, ante o Sportivo Pedal Club, gols de Walter e Carlinhos; 22/3, em Salta, vitória de 3x2 sobre a Seleção Saltense, gols de Ilton, Carlinhos e Sílvio; 25/3, Tucumán, derrota por 1x0 frente ao Atlético San Martin; 28/3, vitória por 3x0 (Luiz Carlos, Sílvio e Flávio) perante o Club Atlético Ledesma, de Jujuy; 01/4, Tucumán, vitória de 2x1 (gols de Eder) sobre o Club Atlético Huracan.
Contundiram-se na excursão Nilson, Machadinho, Ilton e Abílio. Ismael Moreira ficara em Bagé para tratamento e aproveita para treinar os juvenis no campo do Gente Bem (Militão, cedido pelo articulista, enquanto prefeito substituto, a dita entidade). Era preparador físico o professor Natálio Teitelroit. Toninho voltara para o serviço militar. Saulzinho foi considerado o atleta mais alegre e divertido. Todos disseram estranhar a comida e os cigarros argentinos.
Considerada a excursão, os quadrangulares e amistosos (exemplo, Rio-grandense, de Santa Maria, Rio-grandense, de Rio Grande e Cachoeira) jogados até então, o Guarany atuara em 24 jogos, vencera 11, sofrera 7 derrotas e empatara 6 vezes. Eram artilheiros Abílio, 7 gols; Saulzinho, 7; Carlinhos, 6; Eder, 5; Walter, 4; Ilton, 3; Toninho, 2; Ico e Migonga, 2; Zé Roberto e Machadinho, 1 gol. Sofrera 33 gols. Tomava forma o time que seria campeão do Ascenso em fins de 1969: Plínio (Nilson), Selmar (Nanão), Danúbio, Ismael Moreira (Osmar) e Zé Roberto; Carlinhos e Walter (Geraldo); Toninho, Ilton, Abílio (Eder) e Saulzinho. Em entrevista ao Correio do Sul, Danilo Nigris da Silva afirmava que era difícil o retorno á Divisão Principal, mas que estava otimista, confiante nos dirigentes, e que o grupo, mesclado de atletas experientes com jovens, estava pronto para disputar e vencer. Amarante e Zé Roberto, emprestados ao Flamengo, de Caxias, haviam retornado.
O Ascenso começaria em 20 de julho de 1969 (continua).

Fonte: acervo do autor e pesquisa do jornalista Marcelo Pimenta e Silva.

 

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