ANO: 26 | Nº: 6539

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
16/01/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Aroma vaginal

Não é preciso ter fineza de espírito para perceber que ideias doentias só são toleradas em tempos insanos. Quando aquilo que facilmente deveria ser reconhecido como absurdo é visto como extraordinário, tem-se o péssimo diagnóstico de uma época.

Para o ególatra, no mundo contemporâneo, não basta ser diferente ou chamar a atenção: ele precisa ser anabolizado pela excentricidade. Para estes indivíduos que insistem em se denominarem de seres humanos, o bizarro, o ridículo, o excessivo, o obsceno e o grotesco, todos juntos e misturados, são as chaves que abrem as portas da esperança de grandes holofotes. Na outra ponta, a simplicidade, a razoabilidade, a moderação, a decência e a delicadeza, só não estão mais deteriorados do que o fundilho de um tropeiro.

Nos últimos dias foi noticiado que a famosa atriz Gwyneth Paltrow deu início a venda de um produto inovador. Fundadora de um e-commerce de beleza e bem-estar avaliado em cerca de R$ 1 bilhão, ela divulgou a comercialização de uma vela aromática intitulada “This smells like my vagina” (traduzido por “Isso tem o cheiro da minha vagina”). Esse insólito produto foi resultado de uma colaboração entre a atriz e o perfumista Douglas Litte. Na descrição da vela, encontrada no site de Paltrow, é mencionado que seu desenvolvimento foi resultado de uma brincadeira entre ambos durante a elaboração de uma fragrância, e que gerou um aroma que “mistura gerânio, bergamota cítrica e absolutos de cedro justapostos com sementes de rosa de Damasco e ambreta”, oferecendo algo que é sexy, sedutor e que possui “um calor sofisticado”. O preço? Algo em torno de R$ 300. O resultado prático? Em pouco tempo todas as unidades foram vendidas.

Se a proposta de Paltrow foi aguçar a imaginação, talvez tenha conseguido. Pense nas altas temperaturas típicas do Brasil e no escaldante verão dos pampas. Em algum momento isso poderia se assemelhar ao “calor sofisticado” da atriz? Será que a abundância de suor, resultado de sensações térmicas que ultrapassam o aceitável para a tranquilidade humana, pode ofertar um requinte típico da parte íntima de Paltrow? Agora reflita sobre os aromas indicados. Excluindo o caso da bergamota, creio que muitas pessoas terão dificuldades em reconhecer o cheiro de gerânio. Em alguns casos, até mesmo em saber o que é um gerânio. Aproveite essa chance única, e sonhe com sementes de rosa de Damasco e ambreta. Você as conhece? Se ainda tiver curiosidade, delire com o entorpecimento que os “absolutos de cedro” podem causar. Junte tudo isso. Medite. E saiba que esse é o aroma da vagina de Paltrow. Para as outras mulheres, resta-lhes a inveja.

O cáustico humorista Ricky Gervais, apresentador do Globo de Ouro 2020, dirigindo-se aos artistas que aguardavam a premiação, durante um discurso no palco, resolveu ser duro com a “nata” do progressismo de Hollywood e seu mundo de fantasias politicamente corretas: “Portanto, se você ganhar um prêmio hoje à noite, não o use como uma plataforma para fazer um discurso político, ok? Vocês não estão em posição para dar lição no povo, sobre qualquer coisa. Vocês não sabem nada sobre o mundo real. [...] Se você ganhar, ok? Venha aqui, aceite seu pequeno prêmio, agradeça seu agente e seu Deus e caia fora”. Realmente! Esses artistas não sabem nada. Nem mesmo qual é o cheiro de uma vagina.

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