ANO: 26 | Nº: 6543

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
17/01/2020 Fernando Risch (Opinião)

Não consigo mais me indignar

Muito se fala na normalização da barbárie, que o absurdo permeia tanto nosso cotidiano que ficamos anestesiados por ele. Isto é normal, dizemos. E acabamos por dar de ombros. Creio ter chegado a este ponto, nada me choca mais, nada me indigna mais. Tudo é normal, corriqueiro.
 
Tento pensar que faço isso para não jogar o jogo dos malucos, das polêmicas sem pé nem cabeça diárias, e talvez seja isso. Talvez eu simplesmente ignore para não dar palanque para doido dançar. Ou talvez eu já esteja infiltrado na bolha dos atônitos, que não sentem mais nada com os absurdos diários.
 
O presidente da República, pra mim, pode falar o que quiser hoje em dia. Não me causa efeito. Nada, nem um esgar azedo. “Ah, ele falou isso? Que bom pra ele”. Deixou de ser minha responsabilidade essa indignação, passo a bola aos outros. Aqueles que se sentirem responsáveis, que abanem o carvão molhado. Então a ministra Damares quer fazer campanha de abstinência sexual como método contraceptivo? Fantástico, tenho certeza que os jovens tapados de hormônios, se roçando pelas paredes, vão acatar tal ideia.
 
A Justiça do Rio de Janeiro ordenou a censura de um filmeco de comédia sem graça que retrata Jesus como gay? Que ótimo para a Justiça do Rio, sem dúvidas uma decisão constitucionalíssima, muito bem embasada juridicamente e que se sustentará perante uma corte superior. Olha minha cara de indignado aqui (estou rindo). Um maluco liberal acha interessante criar no Brasil um comercio de órgãos não essenciais, assim como no liberalíssimo Irã? Show de bola! Segue assim, fera!  
 
Falando em Irã, o ministro de relações exteriores Ernesto Araújo resolveu apoiar os Estados Unidos no conflito recente com o país, mesmo quando as Forças Armadas se mostraram contra e mesmo quando até Israel quis se eximir de qualquer relação com a morte de Qasem Soleimani, afastando o conflito de si? Bárbaro! Quem estiver de farda que vá para a suposta guerra e quem vender carne pro Irã que reclame com o ministro. Eu ficarei por aqui de dedos cruzados, meu colar de figa e minha água benta, torcendo pelo sucesso de todos.
 
Na verdade, é isso que faço hoje: eu torço. Torço muito pelo sucesso do Brasil e seus brasileiros, como eu. Não me importo mais quem disse o quê, por que disse o que disse. Não me importo mais com quem fez o que, quem determinou acolá. A democracia, enquanto ela existe, assenta seus rumos e corrige seus desvios.  
 
A máquina geradora de lero-lero político parece estar batendo no fundo do poço da criatividade. Mas não durma no ponto, sempre podemos ser surpreendidos com um coelho na cartola. Pode parecer normalizar o absurdo, mas pra mim é ignorar os malucos e deixar que as coisas tomem seus rumos naturais.  
 
Estamos todos atentos, apesar de não parecer. E sempre teremos alguém mais atendo ainda para contestar, para agir. Enquanto este poder não cabe a mim, fico por aqui, rindo e torcendo; torcendo e rindo, num zigue-zague de emoções, sem um menor pingo de indignação.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...