ANO: 26 | Nº: 6557

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
18/01/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Guarany: campeão do Ascenso

Não se pense que as dificuldades financeiras amainavam com a criatividade de algumas iniciativas. Ao contrário. Em certa ocasião os cofres alvirrubros continham apenas 250 cruzados novos para dar o tradicional vale. Faltavam 100 cruzados novos. O Abílio ajudou, emprestando dito valor. A imprensa disse, na época, que a dívida com o atleta foi quitada um dia após. O conselheiro Harald Von Eye anunciava liderar uma campanha para arrecadar fundos. Também foi notícia, em pleno desenvolvimento do campeonato, que Saulzinho e Abílio organizavam um livro de ouro, em busca de recursos. E as vitórias continuavam no gramado. Muitos jogadores lembram que lhes abria a carteira de dinheiro,para que dali tirassem, e era pouco, o suficiente para abafar alguma crise, quando batiam em meu escritório de advocacia. Ante a notícia de que se articulava uma oposição, compareci ressentido ao Correio do Sul, para declarar que aceitava o ingresso daquele grupo desde que aportassem os 51 milhões de cruzeiros antigos que a gestão já havia pagado de avais bancários. É que os dirigentes, inclusive Edgar Pereira Pinto que não assinara a promissória descontada no Banco do Brasil pelo sorteio do apartamento no prédio do Charrua, acossados pela inesperada cobrança, haviam ressarcido o elevado valor com sacrifícios pessoais, inclusive patrimoniais. Contarei isso em outra oportunidade. E que foi prova da união dos quatro gestores e demonstração que o dinheiro que se coloca no futebol, com esperança de retorno da diretoria que assuma não volta nunca mais. Vão-se os cabelos, as horas familiares perdidas, o carro, o imóvel, as decepções, o trabalho e, depois de uma pausa de tentativa de afastamento, se retorna com o mesmo entusiasmo e a mesma esperança. É a mística do futebol do interior.
No Ascenso (hoje Acesso), o Guarany ficou na Zona Três, junto com o G. E. Bagé, Rio-grandense de Rio Grande, Rio-grandense de Santa Maria, Guarany Atlântico de Santa Maria e Cachoeira.
Já a estreia fora dramática, na Estrela D'Alva, em 20 de julho de 1969: 2 x 1, golos de Abílio e Saulzinho. O time que começou esta etapa era formado por Plínio, Nanão, Ismael Moreira, Osmar e Zé Roberto. Afonso e Amarante. Toninho, Ilton (Eder), Abílio e Saulzinho.
Uma semana depois, em 27 de julho, em Santa Maria, no Estádio Marmeleiros, vitória de 4x0 contra o Guarany Atlântico, golos de Ilton, Toninho, Abílio e Carlinhos. Jogaram nesta partida também Patrón, Danúbio e Ico. Em 03 de agosto, o Guarany perdia, ainda em Santa Maria, para o Rio-grandense por 2x 0. Na escalação, Selmar na lateral direita, Patrón por Zé Roberto, Afonso substituiu Abílio durante o jogo, e Ico fora o ponta esquerdo. Em 10 de agosto, empate surpreendente em casa com o Rio-grandense, de Rio Grande. Carlinhos fora substituído por Afonso; e durante o jogo, Eder entrara no lugar de Ilton. No Rio-grandense atuava o goleador Nico. O juiz fora o bajeense Norday Simões. Em 17 de agosto, na Pedra Moura, o primeiro Baguá: 1x0, para o alvirrubro, gol de Abílio, e que teve sua formação habitual. Homenageio o tradicional adversário: Ferreira, Barradas, Padilha, Ralph e Jobim. Táti e Walter. Leleco (Galeno), Selmar, Wilmar Fernandes e Picão. Juiz: João Carlos Ferrani, que suspendeu a partida aos 84 minutos, depois de uma invasão de campo, que sucedera ao gol de Abílio, aos 73 minutos. Essa partida só findaria durante o segundo turno. Há um intervalo, o Guarany vai a Melo dia 24 de agosto e empata em 1x1, golo de Ilton. Esse amistoso teve uma curiosidade: Sérgio Cabral jogou na lateral esquerda, substituindo Zé Roberto. Entrara também Danilo Rodrigues, irmão do Amarante, em lugar de Ico.
Em 14 de setembro começa o segundo turno e o Guarany joga, e vence, em casa o Guarany Atlântico por 2x1, golos de Zé Roberto, que substituira, durante o jogo, a Sérgio Cabral! Em 21 de setembro o Guarany perde em Cachoeira, para o representante local, no Estádio Municipal, por 1x0, golo contra de Carlinhos. Mas na semana seguinte derrota o Rio-grandense, de Santa Maria, em casa, por 2x1, golos de Saulzinho e Abílio. O gol adversário foi do conhecido Plen. Atua Geraldo, substituindo Danúbio. Em 05 de outubro, o Guarany vai até Rio Grande e vence o Rio-grandense por 2x1, golos de Toninho e Abílio.
Em 19 de outubro, um numeroso público na Estrela D'Alva assiste a uma partida eletrizante: um histórico 6x1 no G.E.Bagé, sob arbitragem de Gumercindo Silva. As equipes. Guarany: Plínio, Selmar, Danúbio, Ismael Moreira e Zé Roberto. Afonso e Amarante. Toninho, Ilton, Abílio e Saulzinho. Bagé: Ferreira, Mano, Padilha, Alfeu e Jobim. Walter e Wilmar Fernandes. Leleco, Selmar, Galeno e Picão (Táti). No primeiro tempo, o Bagé abre o placar com Selmar. Mas o Guarany reage, com golos de Zé Roberto (28') e Saulzinho, cobrança magistral de uma falta perto da área, aos 35'. Segundo tempo: Amarante ( 51'), Toninho (57'), Abílio (62') e Toninho (86') encerram o escore. Findo o jogo, os atletas percorrem o estádio com a bandeira alvirrubra enchendo-a com as contribuições para o *bicho*.
Guardo com respeito o exemplar do Correio do Sul sobre a partida que foi presenteado pelo saudoso Danilo Nigris da Silva com uma emotiva dedicatória. Anulado o Baguá do primeiro turno, em 01 de novembro, sob aparato policial, é realizada nova partida na Pedra Moura, em 1 de novembro, com arbitragem de Flávio Cavedini. O Guarany vence por 1x0, golo contra de Mano. Na equipe jalde-negra ingressam Catarino e Misael, como novidades.
Findo o segundo turno, o Guarany se classifica para jogar contra o Tabajara-Guaíba ou Ta-Guá, de Getúlio Vargas, isso em 30 de novembro: é derrotado por 4x2, golos de Saulzinho e Toninho. Fernando, que no ano seguinte viria para o Guarany, marcou um dos tentos da equipe local. Durante o jogo Nilson substituiu a Plínio, lesionado. Em 03 de dezembro o Guarany devolve o resultado: 4x1, no Estádio Antônio Magalhães Rossel, depois de um primeiro tempo marrento (0x0). Mas aos 7 minutos do segundo tempo, Abílio abre a goleada, seguido de Saulzinho ( 30'). Mas faltavam mais golos para a classificação e num final emocionante Abílio marca duas vezes: aos 85' e 88'. Imaginem as comemorações de uma vitória suada, obtida nos instantes finais. O Guarany ia para a final.
Classifica-se também o Veterano, de Carazinho, e a primeira partida é ali, para onde viajo com a delegação. Sérgio Cabral fica para trás, trazendo as camisetas a serem benzidas pelo Dirceu, de um centro umbandista perto do campo do Bagé, que era guru dos jogadores. Teve-se excelente recepção e Carazinho, graças ao cavalheirismo do presidente do clube local, o Dr. Iron Albuquerque, que seria depois prefeito daquela cidade. Foi no dia 14 de dezembro. Apitado por Nede Brum Neves, foi jogo emocionante, mas no fim do jogo, faltando dez para terminar, um lançamento para Toninho que escapa e chuta cruzado vence o goleiro Ricardo. Bem como o Dirceu da umbanda previra ou seja, *um golzinho só, no final*. Acredite se quiser.....
E chega a noite de 17 de dezembro de 1969. Estádio lotado, ainda a velha iluminação. Jogo enrustido. Carlinhos marca aos 17 de segundo tempo. No final, um susto, o Veterano empata com Cafuringa, aos 80'. Se fizesse outro, e isso foi muito tentado, a explosão final da torcida não teria acontecido.
Finalmente, o Guarany era campeão, voltava ao convívio dos grandões. Como previra o Danilo Nigris em sua entrevista, a missão fora cumprida. Lembro a equipe naquele jogo. Plínio, Selmar, Danúbio, Ismael e Zé Roberto. Carlinhos, Geraldo e Amarante. Toninho, Abílio e Saulzinho. Ilton se contundira. Mas também compunham o elenco vencedor, Nilson, Nanão, Danilinho, Osmar, Afonso, Eder, Ico, Patrón. Bolívar Severo, Danilo Nigris, Sérgio Cabral, José Higino, Bataclã, Luís, Carlinhos, Renato Pereira, Godoy, Cardona. Aracely, Edgarzinho, Ferrer, Nilceu, Malafaia, Gafrée, Írio. Dona Nedy. Antônio e Martim Rossel. Os contribuintes e colaboradores de sempre. A torcida entusiástica. No final, uma diretoria que era de dezenas, ficava reduzida aos dedos da mão. E logo, ainda em dezembro, como previsto, seria substituída.
Fonte: acervo do articulista e pesquisa do jornalista Marcelo Pimenta e Silva.

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