ANO: 26 | Nº: 6539

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
18/01/2020 Marcelo Teixeira (Opinião)

Realidade aumentada e inventada

O apresentador Nelson Rubens é autor do famoso bordão “eu aumento, mas não invento” que contém, respectivamente, uma inclinação humana e uma recomendação ética. “Aumentar” um conto ou um relato é uma tendência da natureza humana e já foi até objeto de estudos e reflexão por parte de especialistas no assunto. Já “inventar”, quando se trata de um conto, uma história, uma notícia etc, é algo não recomendável, pois, implica em faltar com a verdade e que, hoje, poderia ser rotulada como “fake news” ou, simplesmente, mentira.
Todavia, mais antiga e famosa que este bordão do Nelson Rubens é a frase do marketeiro nazista Joseph Goebbels que teria dito “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Na verdade a frase original não seria tão curta nem tão bem construída como esta versão popularizada no nosso idioma, ainda que, em essência, diga a mesma coisa. A frase original, em alemão, seria “Eine Lüge muss nur oft genug wiederholt werden. Dann wird sie geglaubt.” (Uma mentira só precisa ser repetida com bastante frequência. Então será acreditada.).
E é impressionante a quantidade de mentiras repetidas à exaustão por muitos dos, hoje, autodenominados integrantes da “resistência”, encanzinados em fazer oposição sistemática ao governo Bolsonaro. Divergir, contestar e fazer oposição é natural do jogo democrático e saudável para qualquer sociedade civilizada, porém, desde que de maneira honesta e coerente. Quem vê ou ouve alguns relatos de integrantes e simpatizantes da resistência pode ficar impressionado com o grau de delírio do discurso e que, ao ser repetido por outros integrantes e simpatizantes, confirma que se trata de uma narrativa alheia, ou seja, não se trata de algo espontâneo, mas sim de uma mera repetição de uma ladainha arquitetada por alguma eminência parda do comando da resistência, com o franco objetivo político de desestabilizar o governo federal.
Quem vê, lê ou ouve até pode pensar que estamos vivenciando no Brasil uma ditadura nazista, fascista, machista, racista, motociclista etc. Que a democracia acabou, que a censura voltou, que vivenciamos um regime de exceção, entre outros despautérios. E o pior é que a gente ouve isso de gente séria, estudada, preparada, mas que prefere fingir demência por puro revanchismo e/ou para defender sua doutrina.
A maior prova de que não há censura nem ditadura é que estas pessoas podem dizer barbaridades como essa sem maiores consequências. Ainda que tentem colocar a culpa da crise econômica no colo do atual governo, ela teve sua origem e ápice exatamente na gestão anterior, eleita e apoiada por eles. Acreditam tanto na própria mentira que chegam a se auto-exilar no exterior alegando perseguição política, mas, incoerentemente, preferem o exílio em países capitalistas europeus em vez dos socialistas latino-americanos que tanto elogiam. Chamam de “golpe” o mesmo que fizeram com Collor e que foi chancelado pelo STF cuja formação foi majoritariamente indicada por eles mesmos.
Tudo isso apenas confirma o brilhante paralelo feito por Millôr Fernandes no sentido de que “A diferença fundamental entre Direita e Esquerda é que a Direita acredita cegamente em tudo que lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente em tudo que ensina." O pior é que há mentiras de ambos os lados, mas, para não dar o braço a torcer admitindo os equívocos de sua liderança ou ideologia ou, simplesmente, para não atrapalhar a luta dos correligionários, muitos preferem, desonestamente, inventar e aumentar uma realidade que não existe. É lamentável!

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