ANO: 26 | Nº: 6494

Fernando Risch

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Escritor
24/01/2020 Fernando Risch (Opinião)

Reich Judicial das Bananas

Eu não vou aqui dizer que a denúncia do Ministério Público Federal contra o jornalista Glenn Greenwald é um absurdo, um ultraje, que é inconstitucional, que é um acinte contra a liberdade de imprensa, que ofende as liberdade individuais, que agride todos os jornalistas, que fere o princípio básico do sigilo de fonte da profissão. Não vou falar nada disso.

Eu vou falar é desta juridicracia brasileira, este Reich Judicial das Bananas que se tornou o Brasil. De uma hora pra outra temos uma espécie de quarto poder, um congresso judicial que tem braço no Executivo: manda prender, manda soltar, manda censurar, legisla, obstrui, faz o que quer, num grau de inconstitucionalidade que só respeita a vontade política do próprio autor da ação, a mando de sabe-se lá quem.

A denúncia contra Greenwald é só mais uma chicana vagabunda de um jogo político sujo. Ela coincide com a ida de Sergio Moro ao programa Roda Viva, da TV Cultura. Os jornalistas do portal Intercept Brasil, que revelaram o escândalo da Vaza Jato, não foram convidados a participar do programa, mesmo que tivesse uma imensa relevância para com o entrevistado em questão. O programa negou que o entrevistado escolhesse a bancada, mas negaram-se a chama-los.

Ricardo Lessa, ex-apresentador do programa, foi retirado do comando por ter anunciado no ar uma entrevista com Santos Cruz, ministro demitido por Bolsonaro pouco tempo antes. O programa foi obrigado a ir ao ar na semana seguinte, mas em vez de dez horas da noite, foi ao ar a meia noite, para propositalmente ter pouca audiência. Antes disso, quando tentou convidar Gustavo Bebianno, o primeiro demitido por Bolsonaro em 2019, a direção recém-empossada por João Dória negou, alegando não ser de interesse público.

Para um nível de comparativo, quando Manuela D'Ávila, do PCdoB, participou do programa pela última vez, na bancada estava um coordenador de campanha de Jair Bolsonaro. Durante o programa, ambos tiveram embates fortes e diretos. É extremamente válido e necessário o debate cruzado entre opositores, é assim que se faz uma democracia. Mas estranha-se a proteção a certos convidados, melindrando-os para não causar mal-estar. Nas perguntas penosas ao ministro Sergio Moro, sobre a corrupção no governo Bolsonaro e o nazismo de Rodrigo Alvim, o ex-juiz desconversou, dizendo não caber a ele comentar.

Num timing quase perfeito, para abafar qualquer crítica ao Ministro da Justiça, surgem denúncias criminais contra o jornalista que expôs Moro ao escrutínio público, em conversas espúrias com o procurador Deltan Dellagnol e a força-tarefa da Lava Jato. As denúncias vêm na esteira do momento em que o Supremo Tribunal Federal proibiu a investigação sobre Glenn Greenwald e a própria Polícia Federal, já sem sua autonomia de outrora e comandada por Sergio Moro, negou ter qualquer evidência de crime do jornalista. É só mais um ataque a um dos inimigos do rei.

Essa é a Nova Era, a era do autoritarismo judicial. A Constituição virou papel higiênico e a casta privilegiada de juízes e procuradores se tornou uma imensa Advocacia Geral da União, trabalhando em conjunto para defender seus favoritos, brincando como semideuses da República. Pode parecer pouco. Agora é ele, Greenwald, vencedor do Prêmio Pulitzer e respeitado até por opositores em todo mundo. Amanhã pode ser você. A miséria de espírito e econômica já nos credenciava a aspirantes de Venezuela. Na cartilha do chavismo, já não falta mais nada.

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