ANO: 26 | Nº: 6539

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
25/01/2020 Marcelo Teixeira (Opinião)

Perda da inocência

Sempre me incomodou ouvir a frase de que “quanto mais conheço as pessoas, mais eu gosto dos meus cachorros”. A razão do meu incômodo é que, como “cachorreiro” que sou, tenho dificuldade em contestar a afirmação, ou seja, reconheço que a frase é boa e é exatamente isso que me incomoda, pois eu não deveria gostar tanto como eu gosto.
Por isso, desenvolvi, intimamente, uma maneira de refletir sobre ela: por que é mais fácil gostar e admirar cães do que pessoas? Para tanto recordo sempre de uma frase que ouvi em um filme antigo que dizia mais ou menos assim: não importa o tempo que a gente conheça alguém, não importa que a gente divida nossa intimidade com alguém durante décadas, pois mesmo assim, em um belo dia qualquer, sem aviso prévio, esta pessoa pode e vai te surpreender.
Resumindo, basta um pequeno tempo de convívio com um cão para que a gente identifique sua “personalidade”, hábitos, preferências, humores, etc. Isso decorre de sua racionalidade reduzida que diminui vertiginosamente a variedade de comportamentos e reações em relação aos humanos. E tudo indica que, na mesma esteira, os cães, de maneira geral, sejam mais estáveis emocionalmente (com exceção de algumas raças mais agressivas), ao contrário dos humanos que, via de regra, apresentam menor estabilidade emocional (com exceção de alguns signos mais equilibrados… ra ra ra ra).
Esta inevitável capacidade humana de surpreender até aqueles com que convivem diuturnamente e por décadas é que acaba contribuindo para que a gente perca a fé na humanidade. Pequenas e grandes decepções com os outros nos deixam mais calejados, praticamente imunes a estas instabilidades emocionais dos outros ou às ações e reações surpreendentes.
Estas descobertas e surpresas vão acabando com nossa inocência aos poucos, afastando uma idéia de que a perda da inocência ocorre de supetão, num talagaço só. Na verdade a perda da inocência é um processo que pode até se estender no tempo, dependendo da quantidade e intensidade das experiências do vivente.
Via de regra, este processo começa muito cedo e sempre com uma decepção com os outros. Lá na infância acreditamos em tudo que os adultos nos prometem ou dizem, até que nos deparamos com uma promessa não cumprida ou descobrimos que um adulto nos mentiu. Pronto! Perdemos a confiança e descobrimos que os adultos mentem e não honram seus compromissos.
Mais tarde experimentamos a mesma sensação com colegas, vizinhos, conhecidos e até nossos ídolos. E a inocência vai diminuindo, diminuindo, nos deixando cada vez mais cabreiros. E aí, se sofrer o duro golpe de uma traição amorosa ou uma grande decepção com um amigo, o nosso espectro de confiança vai se reduzindo ainda mais.
Para completar, podemos nos surpreender até com um irmão ou, quiçá, com o pai ou com a mãe. E quem não? Aí é o estertor da inocência, pois quando até pai e mãe nos surpreendem, é a evidência de que, realmente, é absolutamente impossível conhecer completamente alguém e que, por mais íntima que seja uma relação pessoal, uma pessoa sempre poderá te surpreender.
Isso faz parte do nosso amadurecimento, mas não deixa de ser meio triste, pois, como disse José Wilker: “Sinto falta da minha ingenuidade. A gente vai perdendo ela com o tempo, né? É muito bom ter ingenuidade. É por ingenuidade que você tem fé em certas coisas.”

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