ANO: 26 | Nº: 6575

Fernando Risch

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Escritor
31/01/2020 Fernando Risch (Opinião)

Não pude nem vê-lo


Há alguns anos, uma figura rondou meu espectro. Magro, miúdo, ressecado, nariz adunco, óculos escuros e uma voz fanhosa imparável. Num primeiro momento, achei chato. Invadia o estúdio da rádio e falava alto em meio aos programas no ar. Atrapalhava tentando apontar erros na condução da técnica, principalmente no tempo. O tempo era sagrado. Padrão RBS, ele dizia.

Com os anos, viramos amigos. Parei de achá-lo chato. Sentia sua falta quando não chegava aos sábados querendo ouvir Santana e Michele Branch, como no último sábado. Quando o visitei pela última vez esta semana, no final da Avenida 7 de Setembro, ali na General Mallet, não pude nem vê-lo. A mortalha de madeira que sela vidas e destinos já tinha sido posta sobre seu corpo.

Rezei de mãos dadas com estranhos, abracei meu amigo Carioca e pensei novamente na face magra, miúda, ressecada, de nariz adunco e óculos escuros, mas principalmente na voz fanhosa imparável a misturar assuntos verborrágicos, banhados de uma educação exagerada, de saudações constantes, de despedidas sem fim, com bons dias, boas tardes e boas noites e reverberar repetidamente, até que se esvaísse sua presença.

Sua presença se foi, física. E lamento não ter podido vê-lo pela última vez, e só então compreendi a dor dos que perdem sem ver o corpo. De uma insuportável presença a uma falta estranha daquele que eu pouco via. Descanse em paz, meu amigo Tabajara, onipresente.

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