ANO: 26 | Nº: 6494

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
01/02/2020 Marcelo Teixeira (Opinião)

Diga-me quem citas que te direi quem és

Semana retrasada, neste espaço, citei Goebbels. Passadas duas semanas até agora ninguém, que eu saiba, me rotulou de nazista por causa disso. Ufa! Que alívio! Fiquei até encucado: será que alguém leu? Será que os que leram não sabiam quem foi Goebbels? Será que não fui atacado porque fiz referência ao autor da citação? Será que o trecho citado era suficientemente nazista para ser identificado como tal? Talvez tenha faltado a música de Wagner ao fundo! Aliás, esse é o problema dos jornais, os textos vêm desacompanhados de trilha sonora. É uma lástima! Assim como a TV não transmite odores, os periódicos não comunicam sons.
Já Roberto Alvim, ex-secretário de cultura do governo federal não teve a mesma sorte. Citou Goebbels e perdeu o emprego, mas, antes disso foi surrado e enxovalhado no pau-de-arara eletrônico da grande mídia e das redes sociais. A repercussão foi tanta que imediatamente fui atrás do tal vídeo que teria evidenciado sua incontestável inclinação nazista.
Vi e ouvi com atenção um vídeo muito curto com um discurso nacionalista, absolutamente coerente com o viés ideológico do executivo federal. E ponto! Não havia nada que evidenciasse com clareza qualquer inclinação nazista ou antissemita. Todavia, uma única pessoa, entre as pouquíssimas que visualizam vídeos oficiais da secretaria federal de cultura, em velocidade relâmpago, identificou fragmentos de um discurso de Goebbels com quase cem anos de idade. E mais impressionante que essa memória prodigiosa, capaz de identificar fragmentos de um discurso centenário e pouco conhecido, inserido num discurso irrelevante, de um ilustre desconhecido, ocupante de um cargo do segundo escalão do governo, foi a forma como essa "coincidência" se espraiou na grande mídia e entre as maiores autoridades do país.
De maneira alguma estou a defender Alvim, nem o nazismo ou o antissemitismo, mas me causou muito estranheza uma repercussão tão grande para um fato tão pequeno. Ainda se fosse pelo plágio praticado que revelaria o despreparo e a desonestidade do vivente, mas rotular de nazista só por isso, apenas reforça a suspeita de uma teoria conspiratória que coloca a resistência nos bastidores de mais esse escândalo envolvendo o governo, com a intenção de reforçar a narrativa inaugurada ainda durante a campanha eleitoral, sobretudo se considerarmos que a única pessoa que percebeu o plágio e divulgou no Twitter, é seguidora do Haddad, da Carta Capital e do The Intercept. Esse detalhe, guardadas as devidas proporções, é quase como colocar a música de Wagner ao fundo do discurso de Goebbels.
Certa vez, em aula, citei Che Guevara e alguém interpretou que eu era comunista. Logo eu! Na época esse episódio me fez lembrar daquele ditado popular: "Diga-me com quem anda que te direi quem és." Para provar a superficialidade e o perigo de um julgamento como esse, ouvi alguém retrucar dizendo: "Pois é, Judas andava com Jesus e Jesus andava com Judas!". Se andar com alguém não é suficiente para revelar a índole de uma pessoa, o que dirá, parafraseá-la? De mais a mais, nada impede que pessoas abomináveis sejam autoras de frases memoráveis.
Com todo respeito e consideração às opiniões divergentes, mas vejo muito mais nazismo na patrulha ideológica que enquadrou e defenestrou Alvim do que no plágio do discurso de Goebbels.

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