ANO: 26 | Nº: 6557

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
01/02/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Saladino e o Combate das Traíras

A lealdade também aparece entre inimigos. São muitos os episódios conhecidos nos campos de batalha que encenam atitudes de nobreza entre adversários inconciliáveis. No duelo entre Bento Gonçalves e Onofre Pires quando o primeiro feriu o desafeto logo providenciou os cuidados ao vencido. Conta-se de generais que devolveram a espada para os militares que haviam derrotado. Os exemplos destas cortesias são frequentes. Entre as sagas conhecidas estão atos de Saladino, cruel comandante, mas também um generoso antagonista. Pregava ele o princípio de que os verdadeiros reis não se podem matar.
Nácir Salá Adim Iuçufe ibne Aiube, ou Saladino, militar curdo muçulmano tornou-se sultão do Egito e da Síria e estendeu seus domínios na Palestina, Iraque, Iêmen, restaurando o sunismo ali(1175).Unificou o país, a Síria e a Mesopotâmia. Intenta a guerra santa contra a cristandade, disseminando e fundando colégios para ensino da religião islâmica. Derrota os Cruzados em várias guerras. Em julho de 1187, na famosa Batalha de Hatim, vence a Guy de Lusignan, rei consorte de Jerusalém, marido de Sibila, irmã de Balduíno, o rei leproso. Aqui não tem piedade com os templários, hospitalários ou mercenários, cujos chefes foram executados e alguns decapitados. Destroça o exército cristão. Mas ao rei Guido de Jerusalém mandou servir um copo de água fresca, o que significava misericórdia.
Na terceira Cruzada (1192), defrontando-se com Ricardo Coração de Leão, acaba com ele trocar gestos de cavalheirismo. Assim envia seu médico pessoal para atender ao soberano britânico. Quando Ricardo perde o cavalo durante a refrega manda-lhe dois para compensar. E até frutas frescas envolvidas em neve para mantê-las frias. Depois, ambos pactuam que Jerusalém permaneça na posse dos muçulmanos mas aberta para as peregrinações dos cristãos. Quando Saladino falece (1193), aberto seu tesouro, nada havia para pagar os funerais, pois doara sua riqueza para a caridade. Saladino está sepultado num mausoléu da Mesquita dos Omiadas, em Damasco, para a veneração de seus seguidores.
Todavia, atitudes como as narradas também aparecem por aqui. E próximas.
Imediações do Arroio das Traíras, neste município. É o cenário de notável combate: de um lado, a infantaria da Brigada Militar, formada por homens oriundos da Guarda Cívica de Caçapava, chefiada pelo tenente-coronel Cipriano da Costa Ferreira; em oposição, a força liderada pelo general Zeca Tavares. O fato acontece em 06 de novembro de 1894. A milícia pública estava nas redondezas da fazenda de José Saraiva, próxima ao Rio Camaquã, e recebe ordem do general Pantaleão Telles de atravessar o Rincão das Palmas, onde se situava a moradia do coronel Mateus Colares, limpando a área da presença de rebeldes. Em seguida a tropa rumaria para Bagé, a fim de engrossar o contingente estadual.
O rincão é um lugar apropriado para as guerrilhas, com esconderijos, grotas e excelentes abrigos. Ali os federalistas estavam em seu meio; os brigadianos tinham somente trinta cavaleiros e duas centenas de infantes, insuficientes para enfrentar as patrulhas, além de pouca munição, o que comprometia a missão com ambiente tão desfavorável.
Era início do mês. Cipriano estaciona cerca da propriedade de Colares, e ante e iminência da luta, sendo militar de formação ética e fidalga, manda um oficial até a residência do maragato para tranquilizar a família deste, garantindo-lhe absoluta segurança, além de oferecer seus préstimos para alguma precisão. Ordena, além, que a venda que abastecia os moradores da zona continuasse com portas abertas, para que o comerciante não sofresse qualquer desfalque ou prejuízo, nem os clientes.
Dias após, numa bela noite de primavera, em horas avançadas, enquanto o acampamento repousava, as sentinelas descobrem a presença de estranho, logo preso e levado à presença do comandante: era um idoso, que se declara emissário de Mateus Colares que mandava avisar ao líder dos legalistas que sua unidade seria atacada por poderosa facção revolucionária do general Tavares, e por ele Mateus, então dirigente de mais de 400 homens. Que assim agia em retribuição à atitude do coronel Cipriano com sua família, recomendando que este retrocedesse para Lavras do Sul para salvar seu batalhão do aniquilamento. Cipriano convoca Rufino Tomás Pereira, seu secretário e com parentes na região, para indagar sobre a personalidade de Mateus Colares, obtendo tratar-se de pessoa honesta e proba, com elevado conceito, segundo ouvira o alferes de seu primo Tomás Mércio Pereira, filho do brigadeiro Camilo Mércio Pereira, herói farrapo e da guerra do Paraguai.
Embora não duvidasse do conselho, Cipriano temia uma desforra do general Zeca contra seus soldados, pois Quincas Telles havia dizimado os rebanhos e incendiado a residência do insurreto. Sem pensar em recuo, o coronel legalista resolve rumar a Bagé, deslocando-se para o Arroio das Traíras, onde já era monitorado por vanguardas adversárias.
Logo numa coxilha surgem os cavalarianos do general Tavares, que desfecham a carga, ferindo-se terrível luta; o sangue irmão umedece o solo das Palmas; as estratégias dos quadrados e as muralhas de combatentes se engalfinham com lanças e fuzis, as linhas a pé ou de joelhos se sucedem, impossível a resistência em campo aberto, com os brigadianos em minoria. Logo Cipriano ordena a retirada para uns matos. Contudo, aceitando a tática sugerida por João Machado de Moraes Sarmento, veterano do Paraguai, toma a direção da estância dos Vieira Rodrigues, junto ao passo do arroio, sem deixar de enfrentar os maragatos, mas sempre perseguido por José Bonifácio da Silva Tavares, o Zeca, que reunira grandes chefes consigo, como Mateus, Fidelis Fagundes e Adão Latorre.
A casa da fazenda era rodeada por murada de arames o que dificulta a ação da cavalaria. O combate se dá num trigal, os infantes se digladiam ferozmente; o capitão revolucionário Sagaz tenta usar a lança através de uma janela, mas erra o golpe e tomba morto; Delfino de Barros Leite abate um assaltante de feições indígenas que tentara liquidar o alferes Rufino, as balas dundum ecoam. Fala-se que apesar da luta Cipriano não deixa de cumprir o ritual do chimarrão no pátio do imóvel.
Ante a heróica oposição dos legalistas e tendo perdido fiéis companheiros como Fidelis, Damásio Sarmento, José Francisco Machado, Sagaz e Rosado, além dos ferimentos graves em Latorre, Ribeiro Soares e Eleutério Melo, o general Zeca abandona o terreno deixando algumas patrulhas para manter o cerco, o que não impede Emerenciano Luis Braga de disfarçar-se com roupas velhas e atravessar as linhas inimigas, chegando à cidade; sitiados, já sem víveres e água, com muitos feridos, os legalistas acertam usar a escuridão e tentar o território lavrense, onde se achava o general Mena Barreto, mas quando a penumbra se dissipa há um brado geral: no horizonte já se vê a tropa do general Teles, eclodem vivas a Júlio Prates de Castilhos! O combate do Passo das Traíras, segundo Gabriel Pereira Borges Fortes, representa o ocaso da luta aberta nas coxilhas e a consagração da infantaria.
E ainda mostra que até na guerra fratricida pode se praticar nobreza e cavalheirismo.

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