ANO: 26 | Nº: 6589

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
06/02/2020 João L. Roschildt (Opinião)

A pasteurização do futebol

Parafraseando o célebre Marion “Cobra” Cobretti, personagem de Sylvester Stallone no filme “Cobra”, de 1986, pode-se afirmar com clareza: o politicamente correto é a doença, a liberdade é a cura. A ideia de uma sociedade asséptica, livre de qualquer infestação “imoral” ou de contágios que ofendam a sensibilidade alheia é a típica afirmação da insegurança humana por meio da crença de um mundo perfeito. E tal noção é uma das características de mentes e sociedades totalitárias.

Não que a liberdade deva ser confundida com licenciosidade e que não deva encontrar limites. Mas o simples fato de imaginar um mundo em que todas as possíveis ações tenham a capacidade de machucar os sentimentos de alguém, e que este “alguém” possua o direito de não se sentir “ofendido”, só mostra como a mentalidade contemporânea é uma forja que alimenta mimados. Afinal, pessoas que não conseguem lidar com suas frustrações e que são ultrassensíveis a toda e qualquer ideia ou ação humana que lhe atinja, não passam de “adultescentes”.

O curioso é que essa praga contemporânea afetou todas as esferas da vida. Nos últimos anos seu estrago vem substituindo a maturidade pela infantilidade, o vigor pela fraqueza, o mérito pelo demérito, a liberdade pela escravidão ideológica e a qualidade pela igualdade.

Até mesmo o futebol, um esporte de disputas físicas intensas, é alvo desta patrulha. Para aqueles que viveram com muita alegria uma época (não tão distante) de apostas inusitadas entre jogadores, deboches e comemorações de gols surreais, pode-se afirmar que uma parte considerável do futebol está sepultada. Reparem na dificuldade que seria tolerar que, após ser derrotado de forma avassaladora pelo time rival, a principal estrela de seu time pagasse um churrasco e entregasse carne na boca de um dos carrascos da derrota, como foi o caso de Renato Portaluppi para Gaúcho; ou aturar o corintiano Viola imitando um porco ao comemorar um gol contra o Palmeiras; ou ainda ver Edmundo rebolando uma espécie de funk antes de aplicar um drible em Gonçalves; ou talvez lembrar das célebres e provocativas promessas de Romário e Túlio Maravilha sobre quantos gols iriam fazer no próximo adversário; ou evitar irritações desmedidas e punições de árbitros por imitar um saci ao celebrar um gol em um Grenal, como fez Paulo Nunes. Isso para não falar da ira que despertaria em árbitros ao verem a metralhadora de Batistuta...

Nos últimos dias, o mimado pop-star-craque-de-futebol Neymar, viveu as trevas do politicamente correto esportivo. O astro do PSG, em um dado momento da partida contra o Montpellier, estava cercado por dois adversários. Utilizando-se de primor técnico, tentou aplicar um drible denominado de “lambreta” para se desvencilhar dos rivais. Imediatamente o árbitro o repreendeu. Em outras palavras, advertiu o drible, criticou a excelência e nivelou por baixo o futebol. Após reclamações (corretas) do jogador, o puniu com um cartão amarelo.

A paixão do futebol e a disputa artística em torno da posse da bola estão com os dias contados. Há uma tentativa inadequada de transformar este esporte em uma peça de teatro. A plasticidade de um drible passou a ser vista como humilhação desnecessária. A seguir nessa toada, chegará um tempo em que existirão limites para goleadas ou a proibição de que existam derrotados.

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